8 de jan de 2010

Todos à Copenhague

Sergio Luiz Fontes*

O mundo vai acabar. A humanidade tem se preocupado com esta ameaça ao longo de toda história. E no final das contas, de fato, o mundo sempre acaba para todos nós. Para Edward Lorenz, o fim do mundo foi no dia 16 de abril de 2008. Meteorologista e matemático brilhante, ele morreu de câncer aos 90 anos.

Durante sua vida, Lorenz revolucionou a ciência ao formular a Teoria do Caos quando tentava compreender porque é tão difícil fazer previsões meteorológicas. Em linhas gerais, a teoria diz que uma mudança aparentemente insignificante nas condições iniciais de sistemas complexos como o clima pode causar impactos inimagináveis no resultado final. Para Lorenz, era como se "o bater das asas de uma borboleta no Brasil causasse, tempos depois, um tornado no Texas”. Daí o chamado Efeito Borboleta.

A ameaça mais popular do momento ao mundo é o aquecimento global. Descobrimos que o clima oscila mais do que gostaríamos e ainda não sabemos exatamente os motivos. Uma das conseqüências disto é que as pesquisas na área de meteorologia e mudanças climáticas vêm recebendo cada vez mais recursos. No entanto, ainda não é possível prever o clima, com boa probabilidade de acerto, para daqui a três semanas. Neste sentido, nada mudou muito desde Lorenz.

Em dezembro, o mundo esteve com todas as atenções voltadas para Copenhague, onde ocorreu a 15ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas. Enquanto as principais lideranças do planeta se dirigiam para o rico e artificialmente aquecido norte da Europa, centenas de milhões de milhões de pessoas sofriam com a falta de água própria para o consumo em outras regiões mais ao sul do globo, com sede, doenças e até guerras. E esta não pode ser simplesmente encarada como uma conseqüência do aquecimento global, que não se pode nem mesmo afirmar se realmente existe.

Segundo a ONU, cada pessoa precisa de 20 a 50 litros de água potável por dia para garantir suas necessidades básicas de sede, alimentação cozida e limpeza. Um sexto da população mundial não consegue atingir este mínimo. A diarréia é a principal causa de doenças e mortes em todo o planeta. Na África subsaariana, o tratamento de diarréia consome 12% do orçamento de saúde. Em um dia comum, mais da metade dos leitos dos hospitais dos países da região estão ocupados por pacientes com o problema. E o simples ato de lavar as mãos – quando se tem água – reduz em 47% os riscos de diarréia. Mas 2,5 bilhões de pessoas, incluindo 1 bilhão de crianças, vivem sem saneamento básico. A cada 20 segundos uma criança morre por isso, sendo 1,5 milhão de mortes que poderiam ter sido evitadas todos os anos.

Não é uma previsão catastrófica, o fim do mundo, mas um problema com soluções econômicas e, principalmente, políticas. Enquanto cientista, preocupo-me mais em desenvolver projetos que ajudem a mapear e a promover uma boa gestão dos recursos hídricos do que com a suposta elevação dos mares daqui a 50 anos.

Minha especialidade, a geofísica, é muito útil em projetos deste tipo, utilizando ferramentas similares as que são usadas na exploração de petróleo. A propósito, além de água, energia é outro tema pelo menos tão importante quanto as mudanças climáticas, como todos puderam sentir com o último apagão do Brasil. O petróleo ainda é a principal fonte de energia do mundo. Mas, se há indícios de que os gases poluentes podem nos causar problemas, porque não buscar fontes alternativas de energia, como a solar e a de fusão? E se não encontrarmos uma saída viável, que não atrapalhe o desenvolvimento de regiões pobres como a América Latina e a África? Vamos levar 6 bilhões de pessoas para viver na plácida Copenhague?

*Sergio Luiz Fontes é doutor em Geofísica pela University of Edinburgh e diretor do Observatório Nacional.

Troca de satélite pode prejudicar previsões do tempo no Brasil

O Estado de S.Paulo
05/01/2010

Novo equipamento monitora o País com menos frequência e ainda há risco de ser usado só para Hemisfério Norte
Herton Escobar

Meteorologistas brasileiros terão de se preocupar também com o clima do Hemisfério Norte em 2010. Caso haja eventos extremos por lá, a previsão do tempo no Brasil poderá ser prejudicada, com impactos sobre a aviação civil, agricultura e o monitoramento de tempestades.
O satélite americano do qual o País dependia para esse serviço, o GOES 10, foi desativado no início de dezembro. Ele produzia imagens da América do Sul a cada 15 minutos. Seu substituto imediato, o GOES 12, continua a fornecer imagens do continente, mas com uma frequência menor - a cada 30 minutos.
Até aí tudo bem. Os 15 minutos a mais não alteram a confiabilidade da previsão do tempo no País, segundo o chefe da Divisão de Satélites do Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Carlos Frederico de Angelis.
O problema é quando houver condições meteorológicas extremas no Hemisfério Norte - situação frequente no verão e na primavera, quando ocorrem as temporadas de furacões e tornados nos Estados Unidos. Nesse caso, os "olhos" do GOES 12 poderão ser direcionados para lá, deixando o Brasil "às cegas" por períodos de até três horas. "Aí começamos a ter problemas, pois, com essa periodicidade, não conseguimos fazer previsões de curto prazo (para períodos menores do que três horas)", explica de Angelis.
Isso pode ser um problema para a previsão e o monitoramento de tempestades que se formam e se deslocam rapidamente, como as pancadas de chuva que vêm causando desastres no Rio e em São Paulo nas últimas semanas.
É um pouco complicado, pois há nuvens que se formam e desaparecem em questão de uma hora, e não teremos registro delas", diz o coordenador geral de Agrometeorologia do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Alaor Moacyr Dall"Antonia Junior.
A segurança na aviação também poderia ser comprometida, com uma diminuição na precisão das previsões meteorológicas para planejamento de voos. Na agricultura, o Inpe ficaria impossibilitado, por exemplo, de calcular o acumulado de chuva para um determinado dia com base em imagens de satélite - uma informação crucial para o manejo das lavouras. "Com imagens a cada três horas, o erro torna-se muito grande. O cálculo deixa de ser confiável", explica de Angelis.
DEPENDÊNCIA
Os satélites GOES (Geostationary Operational Environmental Satellite) pertencem à NOAA, a agência federal americana que monitora os oceanos e a atmosfera. São aparelhos geoestacionários, o que significa que ficam posicionados sempre sobre um mesmo ponto do Equador, enquanto suas câmeras escaneiam a superfície.
O GOES 10 olhava só para o Sul e levava 15 minutos para escanear todo o hemisfério. O GOES 12 olha para o Sul e para o Norte, por isso leva o dobro do tempo para produzir as imagens de cada continente.
Os dados são fornecidos gratuitamente aos países da América do Sul por um acordo com a Organização Mundial de Meteorologia. O problema é que, pelo acordo, a NOAA tem obrigação de prover imagens a cada 3 horas, mas não menos do que isso.
O GOES 10 foi desativado em 1º de dezembro, após 12 anos de serviço, e imediatamente substituído pelo GOES 12. A agência americana mantém sempre três satélites em órbita: um para o leste dos Estados Unidos, outro para o oeste e um terceiro, de reserva, caso haja problemas com os outros dois.
O satélite mais novo da série, o GOES 14, foi lançado em junho do ano passado e está passando por um período de comissionamento. Segundo Dall"Antonia, do Inmet, uma vez que esse processo seja concluído, o GOES 14 deverá assumir a função do GOES 12 para o Hemisfério Norte, e o GOES 12 passará a se dedicar exclusivamente à América do Sul, como fazia o GOES 10. A expectativa é que isso ocorra em junho deste ano.
Até lá, Dall"Antonia garante que "o Brasil não ficará descoberto", pois pode ainda recorrer ao satélite europeu Meteosat, que fornece imagens a cada 15 minutos. De Angelis, do Inpe, porém, faz a ressalva de que "a única região de boa confiança para o Meteosat é o Nordeste", por causa da posição do satélite (que fica na interseção de Greenwich com o Equador, sobre a costa da África).

Folha de S.Paulo

05/01/2010

Roberto Nicolsky: Crescimento insustentável



Exportamos cinco toneladas de soja ou quatro de minério de ferro pelo preço de um laptop, cuja produção gerou mais empregos e renda


FELIZMENTE o Brasil já superou os principais reflexos da recente crise econômica mundial. Mas mesmo assim a economia brasileira, que entre 2006 e 2008 cresceu a uma taxa média de cerca de 5% ao ano, em 2009 não repetirá esse desempenho e deverá até encolher um pouco, conforme as estatísticas irão mostrar. A questão a se discutir, portanto, é se o modo de crescer que o governo vem praticando é sustentável.
O crescimento brasileiro tem sido puxado, principalmente, pelos produtos agropecuários, extrativos e primários. São as chamadas commodities, de muito pouco valor por unidade física. Crescemos também produzindo para o mercado interno mediante a expansão do crédito, o que levou famílias a consumir mais, mas também a aumentar muito o seu endividamento. O inconveniente desse tipo de crescimento é que ele se sustenta no crescimento, bem mais acelerado, de outros países, como a China. Os preços de commodities são definidos pela demanda do mercado mundial, e se nos últimos anos têm estado elevados é porque a China compra muito. São fatores que fogem ao nosso controle e qualquer mudança pode paralisar o nosso crescimento, exatamente como aconteceu neste ano.
Esses fatores, em conjunto com a apreciação do real frente ao dólar, geram uma forte pressão de substituição da produção interna por produtos importados, principalmente aqueles de maior intensidade tecnológica e maior valor agregado. Ou seja, exportamos cinco toneladas de soja ou quatro de minério de ferro pelo preço de um laptop, cuja produção gerou muito mais empregos e renda. A indústria brasileira de transformação, que agrega tecnologia e deixa o produto pronto para o consumidor final, está crescendo bem menos do que o PIB. A nossa economia é cada vez mais produtora de commodities agropecuárias e minerais, de produtos básicos e de serviços simples, como o comércio.
A indústria instalada no país, seja eletrônica, farmacêutica, de máquinas e equipamentos etc., importa mais e mais componentes com os quais finaliza ou monta os produtos, sem que o governo aja na defesa da renda e dos empregos industriais. Já tivemos a quinta indústria de bens de capital do mundo e hoje temos apenas a décima quarta, com muito menos conteúdo tecnológico próprio. Isto é a desindustrialização! Entre 2006 e 2008, o deficit do comércio exterior em produtos de maior valor agregado e alta intensidade tecnológica quadruplicou, alcançando US$ 51 bilhões, enquanto exportávamos cada vez mais commodities.
A consequência dessa inconsistente política industrial é que o crescimento da indústria de transformação tem sido inferior ao do PIB. Só em 2008, enquanto a produção interna bruta total cresceu 5,08%, a indústria de transformação registrou um acréscimo de apenas 0,85%, perdendo quatro pontos percentuais de participação no PIB, o que significa menor oferta de empregos de qualidade nos centro urbanos e menor massa salarial na economia.
Mas é possível crescer mais do vimos crescendo? Claro que sim, pois esse é o desempenho de países como China e Índia, que têm crescimento entre 9% e 11% por ano puxado pelas suas manufaturas. Durante a crise que acarretou a redução do nosso PIB deste ano, a China cresceu 8,9% e a Índia 6,5% ao ano.
Como seria possível termos um desempenho semelhante? Colocando o nosso foco no desenvolvimento rápido da indústria de transformação mediante investimentos na acelerada agregação de inovações tecnológicas com preservação ambiental e sem reduzir as atividades agropecuárias e de mineração. Ou seja, ao invés de apenas esburacarmos cada vez mais a nossa terra e desmatarmos as nossas florestas para fazer pastos ou plantar soja, devemos usar a nossa criatividade para desenvolver e agregar as inovações que o mercado mundial quer em nossos produtos, de uma maneira compatível com a sustentabilidade -as chamadas tecnologias verdes-, tornando-nos altamente competitivos e disputando esse mercado até com produtores asiáticos, que ainda não têm uma ação ambiental consistente.
Este é o caminho para o país crescer de modo sustentável: investir pesadamente no desenvolvimento de tecnologia nacional e na incorporação de inovações em nossas manufaturas para que elas atendam o mercado global, gerando empregos qualificados e renda bem distribuída, sem prejudicar o meio ambiente. Fala-se que podemos crescer mais de 5% em 2010. É possível, se o rápido crescimento da China deixar, pois, como visto, esse modelo é para nós um crescimento insustentável.


ROBERTO NICOLSKY é doutor em física e diretor-geral da Sociedade Brasileira Pró-Inovação Tecnológica (Protec).

Folha de S.Paulo

08/01/2010

Ruy Martins Altenfelder Silva: Oscar Sala: o físico


No último dia 2 de janeiro morreu um dos mais respeitáveis cientistas brasileiros: o professor Oscar Sala

NO ÚLTIMO dia 2 morreu um dos mais respeitáveis cientistas brasileiros: o professor Oscar Sala, que nasceu em Milão em 26 de março de 1922 e naturalizou-se brasileiro, pois aqui desenvolveu sua brilhante carreira e construiu família.
Autor de inúmeros trabalhos originais publicados em revistas e jornais nacionais e estrangeiros, Oscar Sala exerceu desde 1945 o magistério superior, mantendo constante intercâmbio com centros de pesquisas físicas dentro e fora do Brasil e colaborando em missões científicas internacionais na América Latina, nos Estados Unidos e na Europa. Algumas dessas missões estiveram ligadas à Agência Internacional de Energia Atômica, de Viena, para a discussão de temas nucleares. Foi professor catedrático de física nuclear da USP.
No início da carreira, Sala realizou pesquisas sobre interações nucleares, inclusive as observadas com raios cósmicos, desenvolvendo circuitos eletrônicos rápidos de coincidência.
Durante estágio na Universidade de Illinois, nos EUA, de 1946 a 1948, criou uma técnica para utilizar osciloscópios eletrônicos em inovações de vidas médias de nuclídeos isômeros. Essa técnica foi a repercussão de modernos instrumentos multicanais e continua em uso pelos pesquisadores daquela instituição.
Sala também participou do projeto e da construção, no Brasil, do acelerador eletrostático Van de Graaf, da USP, com 3,5 milhões de volts, no qual introduziu importantes inovações tecnológicas. O modelo foi adotado no injetor de íons do cosmotron de Bookhaven. O acelerador de São Paulo foi o primeiro a utilizar feixes pulsados para estudos sobre reações nucleares com nêutrons rápidos. No período, desenvolveu estudos correlatos com repercussão internacional.
A partir de 1970, Sala deu notável contribuição ao projeto do acelerador Pelletron, da USP, por cuja montagem e funcionamento foi responsável, introduzindo importantes modificações para torná-lo mais eficaz, preciso e confiável.
Além de participar de trabalhos desenvolvidos na USP, Sala também esteve presente em diversas outras instituições nacionais e internacionais. Participou ainda de grupos científicos sobre física nuclear em Varsóvia, em Tóquio e na Dinamarca.
Sala foi também um líder. Presidiu a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (1973-1979) e a Sociedade Brasileira de Física (1968-1971).
Foi membro de importantes instituições nacionais e internacionais e do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico).
No conselho e na presidência da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), Oscar Sala mostrou sua capacidade gerencial e desenvolveu relevantes trabalhos. Criou o Projeto Rede ANSP (ou Academia Network in São Paulo), como um projeto especial para atender a solicitação de interconexão das redes das três universidades estaduais paulistas, do Instituto de Pesquisas Tecnológicas e da própria Fapesp.
De acordo com o saudoso mestre: "Visualizei a importância da comunicação que os cientistas teriam através daquele computador, a evolução que a ciência poderia ter, a rapidez com que as informações de outros países chegariam ao Brasil, e aí eu quis contribuir (...). A Fapesp foi muito importante nesse desenvolvimento.
Ela acertou a ideia de um sistema moderno e avançado, que se comunicava com todos. No início, acharam que era uma bobagem a minha ideia, mas aí eu fui lá e fiz a bobagem". Em 1981, Oscar Sala recebeu o Prêmio Moinho Santista (o Nobel brasileiro) destinado à física pela conquista dos seus trabalhos.
Foi casado com dona Rosa Augusta Pompiglio, com quem teve os filhos Luiz Roberto, Regina Maria e Tereza Cristina.
Oscar Sala deixou trabalhos importantes e é merecedor da homenagem e da saudade de todos os brasileiros.


RUY MARTINS ALTENFELDER SILVA , 70, advogado, é presidente do Conselho Superior de Estudos Avançados da Fiesp e curador do Prêmio Fundação Bunge (antigo Moinho Santista). Foi secretário de Estado da Ciência, Tecnologia, Desenvolvimento Econômico e Turismo do Estado de São Paulo (governo Geraldo Alckmin).

Revista Pesquisa Fapesp

Urano e suas luas

Eclipses e ocultações fornecem dados para aprimorar a compreensão da estrutura dos planetas


© Nasa
Urano

Fala-se pouco de Urano. Sétimo planeta a partir do Sol, o astro com nome do deus grego que representava os céus só foi descoberto em 1781 e não costuma ganhar nos noticiários o mesmo espaço dedicado hoje a Marte. Esse motivo pode até fazer muitos pensarem que se trata de um planeta menor. Mas não Roberto Vieira Martins. Ele e colaboradores do Observatório Nacional e do Observatório do Valongo, no Rio de Janeiro, testemunharam recentemente uma rara sequência de ocultações e eclipses entre as principais luas de Urano. As medições que obtiveram, as mais precisas já feitas para essas luas, devem ajudar a conhecer melhor tanto a trajetória dos satélites como a própria estrutura interna desse planeta azul-esverdeado coberto por densas camadas de nuvens.

Desde que retornou do doutorado na França em 1982, o astrônomo brasileiro registra continuamente a revolução celeste de Urano e suas cinco maiores luas: Miranda, Ariel, Umbriel, Titânia e Oberon. De agosto a novembro de 2007, Martins e os astrônomos Marcelo Assafin, Felipe Braga-Ribas, Dario da Silva Neto e Alexandre Andrei se revezaram no telescópio do Observatório do Pico dos Dias – o maior em solo nacional, instalado em Brasópolis, Minas Gerais – para acompanhar uma série de ocultações e eclipses ocorridos entre as cinco das 27 luas de Urano, o único planeta do Sistema Solar com eixo de rotação inclinado um pouco mais de 90 graus em relação ao da Terra.

A equipe do Rio observou cinco ocultações, quando um satélite encobre total ou parcialmente o outro, e dois eclipses, situação em que a sombra de uma lua encobre total ou parcialmente a outra. Foi uma oportunidade rara, pois Urano só se coloca em posição favorável à observação de eclipses e ocultações duas vezes durante os 84 anos que leva para completar uma volta em torno do Sol. Além dos sete eventos, descritos em abril de 2009 no The Astronomical Journal, o grupo carioca acompanhou algo ainda mais incomum: uma ocultação e um eclipse simultâneos envolvendo o mesmo par de satélites – Ariel, de 1.150 quilômetros de diâmetro, e Miranda, quase 2,5 vezes menor.

Brilho e órbita - A passagem de um satélite ou de sua sombra à frente de outro bloqueia parte ou até mesmo toda a luz refletida por aquele mais distante da Terra – e, nesse caso, próximo a Urano. Conhecendo a redução de brilho, os astrônomos conseguem calcular a distância entre os objetos. Em geral, são necessárias medições feitas por vários telescópios para estabelecer com precisão a posição dos satélites na órbita de um planeta. Mas tudo fica mais simples quando ao mesmo tempo há um eclipse e uma ocultação de uma lua sobre outra, como ocorreu com Ariel e Miranda. “Essas informações, que serão publicadas em breve, tornam possível estabelecer de maneira mais precisa a geometria da órbita desses satélites, com margem de erro de 30 quilômetros”, afirma Assafin, da equipe do Valongo, ligado à Universidade Federal do Rio de Janeiro.

E 30 quilômetros são quase nada para o planeta mais distante visível a olho nu, situado a 2,9 bilhões de quilômetros do Sol, distância 20 vezes maior do que a que separa a Terra de sua estrela. Nem a passagem da sonda espacial Voyager 2, que visitou as vizinhanças do planeta azul-esverdeado em 1986, havia gerado dados tão precisos sobre a órbita desses satélites. “Nossas observações permitiram coletar dados pelo menos 10 vezes mais precisos do que os anteriores”, conta Martins, que também é pesquisador associado do Observatório de Paris.

Somando esses dados aos de grupos internacionais, a equipe de Martins espera estabelecer com mais exatidão as órbitas das luas em torno de Urano e as forças que as influenciam. “Nem sempre são óbvios os fatores que determinam a órbita”, conta Martins. Um dos fatores que os astrônomos acreditam interferir na trajetória das luas é a chamada força de maré, consequência secundária da atração gravitacional entre dois corpos. Assim como a força de maré, que provoca uma lenta variação na órbita dos satélites, há também a influência de outras forças decorrentes da distribuição irregular de matéria no interior do planeta.

A partir dessas informações os astrônomos conseguem inferir a composição das camadas mais internas do planeta. Sob suas nuvens de milhares de quilômetros de espessura, por exemplo, imagina-se que existam oceanos de água diluída em metano e talvez até mesmo uma superfície sólida. Mas tudo o que se vê a partir da Terra é a atmosfera. “Não sabemos o que existe ali embaixo”, conta Martins.

Conhecer a estrutura dos planetas mais externos do Sistema Solar, como Júpiter, Saturno, Urano e Netuno, deve revelar detalhes do ambiente em que eles e o Sol se formaram há 4,5 bilhões de anos. Mas, antes mesmo que se obtenha esse tipo de informação, Assafin acredita que Urano se tornará mais conhecido. É que na busca por planetas rochosos como a Terra (ver Pesquisa FAPESP nº 104 e nº 164) os menores planetas encontrados têm as dimensões de Urano. “Para entender por que estão lá”, diz Assafin, “é preciso saber por que também existem por aqui”.


Nasa

Em ordem crescente: as luas Miranda, Ariel, Umbriel, Titânia e Oberon

> Artigo científico

ASSAFIN, M. et al. Observations and analysis of mutual events between the Uranus main satellites. The Astrophysical Journal. v. 137, p. 4.046-53. Abr. 2009.

Revista Pesquisa Fapesp

O futuro em debate

Começa a preparação da 4ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação

Fabrício Marques

Edição Impressa 166 - Dezembro 2009

Entre os dias 24 e 28 de maio de 2010, especialistas, autoridades e membros da comunidade científica estarão em Brasília discutindo rumos e diretrizes para a política de ciência, tecnologia e inovação do país nos próximos anos. A 4a Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação terá como mote os desafios para integrar a ciência ao desenvolvimento sustentável. O evento foi convocado em novembro pelo ministro da Ciên­cia e Tecnologia, Sergio Machado Rezende, que ressaltou a importância de estabelecer estratégias de longo prazo. “Essa conferência vem em um momento oportuno porque faz 10 anos que foram ampliados os recursos para a ciência e tecnologia”, disse Rezende, que destacou a relevância de iniciativas tomadas na década passada, como a criação dos fundos setoriais. “Devemos avaliar nossos avanços e ainda propor um novo plano. Quem sabe, até mesmo, uma política de Estado que se estabeleça pelos futuros governos até 2020”, destacou.

A primeira edição da conferência, realizada em 1985, debateu os desafios para o desenvolvimento do país, com destaque para áreas estratégicas, como informática, biotecnologia, química fina, além de uma política de formação de recursos humanos. A segunda, convocada em 2001, teve como mote a inovação e foi marcada pelo debate dos fundos setoriais. O tema da terceira conferência, ocorrida em 2005, foi o desenvolvimento econômico e abordou os temas do Plano de Ação de Ciência, Tecnologia e Inovação para o período de 2007 a 2010. Agora a palavra-chave é o desenvolvimento sustentável, com destaque para a utilização da biodiversidade e as mudanças climáticas. “Entre os membros dos Bric [Brasil, Rússia, Índia e China], somos a única nação com reais condições de crescer de acordo com os cânones do desenvolvimento sustentável”, diz o físico Carlos Aragão, secretário-geral da conferência. “Queremos chegar ao final da conferência com subsídios para que se tenha uma política de Estado que garanta tranquilidade a quem atua na área da ciência, tecnologia e inovação e que mostre a importância do setor nas discussões que envolvam o desenvolvimento sustentável”, afirmou Aragão.

Sugestões - O evento também debaterá outros temas focais, como a inovação, a importância da educação e o novo papel do Brasil no cenário internacional. A Conferência Nacional será precedida de conferências regionais, que acontecerão entre os meses de março e abril em Vitória (Região Sudeste), Porto Alegre (Sul), Cuiabá (Centro-Oeste), Belém (Norte) e Maceió (Nordeste). Em paralelo, está sendo discutida a estrutura do evento nacional, como os tópicos das grandes plenárias. “Estamos recebendo sugestões bastante pertinentes, como, por exemplo, a inclusão da importância da ciência básica entre os temas”, diz Aragão, referindo-se a uma sugestão feita pelo diretor científico da FAPESP, Carlos Henrique de Brito Cruz, que foi convidado a participar do conselho consultivo da conferência.

Na avaliação de Brito Cruz, é preciso incentivar ainda mais a ciência básica, ao mesmo tempo que se cria a cultura de inovação nas empresas. “Não devem ser objetivos mutuamente excludentes, são complementares”, afirmou. “Os avanços do conhecimento na literatura, nas artes, nas humanidades, na filosofia, na física da origem do Universo, na química fundamental, na teoria da evolução, nas partículas elementares e outras áreas são temas que intrigam e desafiam a humanidade há séculos, e saber mais sobre eles é requisito essencial para participarmos mais do mundo como sujeitos, e não como espectadores somente.” Brito também observou que os atores envolvidos até agora na conferência são majoritariamente vinculados ao governo federal e ressaltou a importância de convocar um espectro ainda mais amplo de vozes para a discussão, para que a conferência seja nacional e não somente federal. “O Conselho dos Reitores das Universidades Estaduais Paulistas precisa ser incluído entre os organizadores, pois suas instituições respondem por uma elevada proporção da ciência e da pós-graduação no país.”

Correio Braziliense

05/01/2010

O pré-sal, a geofísica e o MEC :: Fernando Zaider


Jornalista e editor do Portal Geofísica Brasil (www.geofisicabrasil.com)


  • Em que pesem os excelentes serviços prestados, o Ministério da Educação está prestes a cometer grave erro que poderá conduzir o país a um atraso. Os membros do comitê responsável pelo projeto Referenciais Nacionais de Cursos de Graduação, coordenado e conduzido dentro do MEC, não devem saber a diferença entre geofísica e geologia e acreditam que devem unificar os dois cursos de graduação num só, o de geologia.

    Sem geofísicos, o petróleo abundante e de boa qualidade, que tornaria o país um exportador de hidrocarbonetos, ficaria fadado a permanecer oculto e intocado nas profundezas da camada do pré-sal. Não é possível conhecer a geologia marinha sem a ajuda essencial da geofísica.

    Mas não é só na indústria do petróleo que os geofísicos podem atuar. O setor mineral está aquecido para pesquisa exploratória. E, especialmente em áreas cobertas por espessa vegetação, como a Amazônia, região de difícil acesso por via terrestre, a geofísica aérea ganha em agilidade e logística.

    Atribui-se à geofísica a compreensão da estrutura interna do planeta. Graças aos pesquisadores geofísicos, foi possível elaborar a Teoria da Tectônica de Placas, amplamente aceita hoje e que explica as causas de terremotos e tsunamis.

    Diferentemente da geologia, que estuda a Terra a partir dos afloramentos visíveis na superfície, os métodos geofísicos se baseiam na medição e comparação de fenômenos físicos como eletricidade, magnetismo, radioatividade, acústica, ótica, ondas, sísmica, gravidade, entre outras medidas que nos permitem mapear e “enxergar” a subsuperfície do planeta com grande precisão.

    Não é só no Brasil que a falta de geofísicos qualificados preocupa. No Reino Unido, por exemplo, devido a dificuldades para formar novos geofísicos, a Associação Britânica de Geofísica faz uma série de recomendações para assegurar o “fornecimento equilibrado de geofísicos graduados, aptos a satisfazer as demandas de curto, médio e longo prazos da indústria da energia em geral e do país”. Na introdução de um estudo realizado pela entidade em 2006, Lorde Browne of Mandigley, principal executivo do Grupo BP (British Petroleum), definiu a geofísica como matéria ampla situada no ponto de encontro de muitas das grandes ciências — física, astronomia, ciências planetárias, geologia, ciências ambientais, oceanografia e meteorologia.

    “As observações geofísicas são fundamentais para o nosso entendimento da Terra e seu funcionamento. A geologia moderna é amplamente baseada nessas observações”, afirmou o executivo do BP. E foi além: “A geofísica é uma ferramenta essencial no armazenamento seguro de lixo radioativo, monitoramento de tratados de banimento de testes e armas nucleares, avaliação e mitigação de fenômenos naturais, o sequestro de dióxido de carbono da atmosfera e a caracterização e proteção das fontes de água do mundo. É a única maneira de investigar e aprender sobre os processos e estruturas profundas da Terra e, portanto, um suprimento de geofísicos é vital para o futuro da nação”.

    A Academia Brasileira de Ciências manifestou sua preocupação ao ministro da Ciência e Tecnologia, Sergio Rezende. “A decisão do MEC de extinguir cursos de graduação em geofísica, colocando-os dentro dos cursos de geologia, atinge profundamente os sete cursos em funcionamento (IAG/USP, UFF, UFRN, UFBA, Unipampa, UFPA, UnB), sendo que o mais antigo deles (USP) acaba de completar 25 anos de existência.”

    Para 24 acadêmicos de Ciências da Terra e do Universo, a decisão do MEC pode ser danosa ao desenvolvimento científico e tecnológico da área. Há três novos cursos em fase de projeto nas universidades Estadual Paulista (Unesp), Federal de Ouro Preto (Ufop) e Estadual de Campinas (Unicamp), em vista da carência e grande procura por profissionais da especialidade, motivada pelo incremento da atividade da indústria do petróleo e da exploração mineral no Brasil.

    A convergência de denominações em andamento no MEC, que pretende atualizar e unificar as designações de milhares de cursos de graduação que têm projetos pedagógicos e perfis semelhantes, mas com nomenclaturas diferentes, está para cometer grave erro e poderá, se vier a acabar com os cursos de geofísica, conduzir o país a um retrocesso, freando a formação de profissionais capacitados para atender à crescente demanda por serviços especializados e novos pesquisadores em geofísica.