2 de mar. de 2012

Inferno fora da Terra

Scientific American Brasil
por John Matson

Astrônomos produzem mapa térmico bidimensional inicial de mundo extrassolar



Conforme o exoplaneta HD 189733 b é eclipsado pela estrela-mãe, astrônomos conseguem monitorar o quanto a radiação observada no infravermelho diminui, e, portanto, o quanto é gerado pelas faixas curvas individuais do planeta. Repetindo o processo, quando o HD 189733 b ressurge detrás da estrela, ele produz um esboço bidimensional [ao fundo] da emissão térmica do planeta. Uma análise complementar dos dados do eclipse produz um mapa similar [acima].

Há meros 60 anos-luz de distância, orbitando uma estrela alaranjada, a HD 189733, existe um mundo que um terráqueo não gostaria de visitar. O planeta, um gigante gasoso como Júpiter ou Saturno, mas diferente desses mundos familiares, atrai firmemente a estrela-mãe, orbitando a cerca de 1/30 da distância que a Terra gira do Sol. O exoplaneta, denominado HD 189733 b por convenção astronômica, apresenta temperaturas acima dos 900º C. Graças a um novo estudo, quaisquer infelizes hipotéticos forçados a visitá-lo saberão qual parte é a mais infernal. Um trio de pesquisadores da University of Washington, em Seattle (UW), da Columbia University e da Northwestern University produziu um mapa térmico da atmosfera do planeta tanto em latitude quanto em longitude. A pesquisa aparece em The Astrophysical Journal Letters.

O mapa está pouco elaborado, o que não é surpresa, já que o HD 189733 b não pode ser visto em sentido convencional. Como é o caso da maioria dos mais de 750 exoplanetas já identificados, sua presença e propriedades são inferidas a partir de observações indiretas, pelo monitoramento de quanta luz estelar o planeta bloqueia ao passar na frente da estrela-mãe, por exemplo.

Há cinco anos, astrônomos usaram o telescópio espacial Spitzer para traçar a diferença longitudinal na emissão térmica do HD 189733 b do lado diurno em relação ao noturno por meio do monitoramento da radiação infravermelha proveniente tanto da estrela quanto do planeta. Ao acompanhar as mudanças do planeta em sua órbita, os pesquisadores conseguiram mensurar não só a radiação infravermelha emitida pelo planeta, como também a radiação das faixas longitudinais individuais do corpo.

O HD 189733 b exibe sempre a mesma face e hemisfério para a estrela, da mesma forma que o mesmo lado da Lua constantemente se volta para a Terra. “Depois de observá-lo por meia órbita, começamos a ver todos os lados”, explica Eric Agol, astrofísico da UW que contribuiu para o esforço de mapeamento de 2007 e para o último estudo. “Mas não sabemos de onde a luz vem como função da latitude”.

Para obter uma imagem bidimensional, Agol e seus colegas usaram o Spitzer para acompanhar o HD 189733 b, conforme o planeta desaparecia atrás da estrela para depois ressurgir. Devido aos assim chamados eclipses secundários ocorrerem no topo da face estelar, a borda da estrela apaga o planeta em ângulo, permitindo que a equipe de Agol estimasse o brilho térmico de várias faixas inclinadas do planeta enquanto ele passava atrás da estrela e quando ressurgiu. “Enquanto o planeta orbita atrás da estrela, sabemos a porção que está encoberta”, avalia Agol. “Então comparamos isso com a quantidade de fluxo que desaparece naquele tempo e combinamos os dados para obter uma imagem bidimensional do corpo celeste”.



Após manifestação de cientistas, editora reduz preço de artigos

Folha de São Paulo
SABINE RIGHETTI
DE SÃO PAULO


Elsevier anunciou corte de 60% no valor pago para baixar estudos de matemática.

A Elsevier, maior editora de periódicos científicos, anunciou a redução do preço do download individual dos artigos de matemática de cerca de R$ 45 para R$ 19 cada.

A decisão foi anunciada após uma manifestação de cientistas do mundo todo-encabeçada por matemáticos renomados do Reino Unido e dos EUA- contra os preços cobrados pela Elsevier pelo acesso aos textos publicados.

Hoje, os cientistas têm de pagar pelo download individual dos artigos que quiserem ler ou pela assinatura dos periódicos científicos.

Para ter uma ideia do que isso significa, só o governo brasileiro despendeu R$ 133 milhões em 2011 para que cientistas de 326 instituições do país tivessem acesso a 31 mil periódicos científicos de editoras como a Elsevier.
O movimento do boicote começou em janeiro deste ano, liderado pelo matemático Timothy Gowers, da Universidade de Cambridge.

Depois disso, o também matemático Tyler Neylon, que fez doutorado na Universidade de Nova York, organizou um abaixo-assinado on-line contra a Elsevier.

O documento já tem mais de 7.500 assinaturas de cientistas de todo o mundo.

Em entrevista exclusiva à Folha, Neylon disse que a Elsevier precisa deixar mais clara a sua posição sobre o direito dos autores de publicar seus estudos em suas páginas pessoais, como blogs.

"A política deles em relação a isso é muito confusa."

A editora apoia um projeto de lei em tramitação nos EUA que proíbe que os cientistas disponibilizem seus trabalhos abertamente.

Hoje, a Elsevier edita mais de 2.000 periódicos científicos, entre eles revistas como "Lancet" e "Cell".



Consciência cósmica

Folha de São Paulo

MARCELO GLEISER

Quanto mais percebemos a complexificação da matéria, mais entendemos que somos criaturas raras
Desde 1998, o agente literário, empresário e intelectual americano John Brockman vem compilando opiniões de alguns dos cientistas mais conceituados do mundo, publicadas em livros. Cada ano tem um tema diferente. Em 2010 foi discutido "Como a internet está mudando nosso modo de pensar". Neste ano, a pergunta foi "Qual o conceito ou a ideia científica que pode nos aprimorar?" As 151 respostas, vindas de especialistas como Freeman Dyson, Daniel Kahneman e Steven Pinker, acabam de ser publicadas nos EUA em "This Will Make You Smarter"("Isto vai deixar você mais esperto"), livro que já avança na lista dos mais vendidos do país.

Brockman acredita que os cientistas (naturais e sociais) são os que ponderam as questões mais essenciais do nosso tempo. E não falamos apenas de aquecimento global ou do destino do Universo. Questões de natureza pessoal, ou mesmo corporativas, fazem parte da discussão: como viver melhor, o que é moralidade, como lidar com ideias contrárias às suas, como crescer trabalhando em grupos etc.

Inspirado no famoso ensaio "As Duas Culturas e a Revolução Científica", de 1959, do físico e escritor inglês Charles Percy Snow, Brockman propõe uma "Terceira Cultura", em que cientistas-humanistas são os principais criadores de cultura e de revoluções culturais.

Segundo ele, a fertilização plural de ideias vindas de áreas diferentes levará não só a soluções para os principais problemas que afligem a humanidade, da energia à fome, como também definirá nosso futuro.

Neste ano, dentre as muitas ideias provocadoras e instigantes, um tema fala mais alto do que os outros. Mesmo que tenhamos muito o que celebrar com relação aos nossos avanços científicos e intelectuais, temos razões de sobra para permanecermos humildes, especialmente ao confrontarmos a vastidão do que não sabemos sobre o Universo e sobre nós mesmos.

Como escreveu o neurocientista David Eagleman, da Faculdade Baylor de Medicina: "Considere as inúmeras decisões políticas, as asserções dogmáticas e as declarações factuais que ouvimos todos os dias e imagine se todas tivessem um mínimo de humildade intelectual".

Na minha contribuição, abordo um tema que explorei em meu livro "Criação Imperfeita" (Ed. Record, 2010): como o progresso na astrobiologia e na cosmologia estão nos fazendo repensar a lição central do copernicanismo, a de que, quanto mais aprendemos sobre o Universo, menos importantes ficamos.

Ao contrário, quanto mais percebemos que a complexificação gradual da matéria ao longo da história cósmica -das partículas elementares à matéria viva- é produto de imperfeições, acidentes e assimetrias sem qualquer grande plano por trás dela, mais entendemos que somos um fenômeno único no Cosmos, criaturas raras, capazes de se questionar sobre o futuro.

Mesmo que outra inteligência exista em algum canto da galáxia, as distâncias interestelares agem como uma barreira que, ao menos pelas próximas gerações, é intransponível. A conscientização de nossa solidão cósmica e da raridade de nossa casa planetária nos leva (ou deveria levar) a uma nova relação com a vida. Está na hora de começarmos a celebrar nossa existência.

MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor de "Criação Imperfeita". Facebook:goo.gl/93dHI



Merav Opher: Uma brasileira na cauda do cometa

http://brasil.txchnologist.com
POR JOHN RENNIE



Uma fotografia amarelada dos anos 70 no Brasil, mostra duas meninas gêmeas ao lado do pai, um astrônomo, além de uma jovem amiga. Todos estão em pé debaixo de um prato de um radiotelescópio nos arredores de São Paulo, sorrindo e acenando para a câmera. Não muito antes de a foto ser tirada, as duas naves espaciais Voyager haviam embarcado em suas longas jornadas por Júpiter, Saturno, e os outros grandes planetas. No ano passado, uma das gêmeas, a astrofísica Merav Opher, compartilhou sua paixão pela ciência espacial, durante uma coletiva de imprensa na NASA. Ela usou dados a partir dessas sondas para revolucionar conceitos sobre a borda do Sistema Solar.

“A borda do sistema solar” é mais do que um jogo de palavras. Um vento tênue invisível de ondas de gás ionizado sai do Sol a uma velocidade de um milhão de milhas por hora, carregando consigo o seu campo magnético. Esse vento não irradia infinitamente: Muito além da órbita de Plutão, esse vento solar bate bruscamente num meio interestelar muito fino e os restos espalhados gasosos de estrelas que explodiram. Aquela fronteira define o que os astrônomos chamam de heliosfera.

Apenas alguns anos atrás, Opher desempenhou um papel fundamental para explicar por que a heliosfera é surpreendentemente desequilibrada e disforme. Agora ela está sugerindo que parte da borda da heliosfera possa ser uma espuma de agitação magnética, o que poderia ter grandes implicações para a astrofísica.


Mervav Opher. (Melody Komyerov/BU Photography)

“Ela teve um impacto enorme neste campo da heliosfera exterior”, comenta James F. Drake, da Universidade de Maryland, um físico que colaborou com Opher no seu trabalho mais recente. “Quando ela estava começando, a maioria das pessoas realmente não pensava que o campo magnético interestelar contribuísse muito. Acho que Merav desempenhou um papel essencial no convencimento das pessoas.”

Essa descrição poderia ter satisfeito os pais de Opher. “Eles nos educaram para pensar: “Se você trabalhar em qualquer área, assegure de deixar uma impressão”, ela lembra.” Realmente tente fazer alguma coisa valiosa.”

New York-Haifa-São Paulo

Merav e sua irmã gêmea, Michal, nasceram em 1970, filhas de um casal nova-iorquinos expatriados em Haifa, Israel. Seu pai, Reuven Opher, era na época um astrofísico da Universidade Technion. No entanto, um ano sabático no Brasil levou Reuven a se apaixonar pelo país. Quando ela tinha oito anos, eles se mudaram para São Paulo, onde ele aceitou uma proposta de trabalho em uma universidade.

Merav é entusiasmada por São Paulo, cidade que ela considera “muito sofisticada e incrível.” O ambiente multicultural do Brasil também ajudou na adaptação dos Opher, que, ainda assim, falavam hebraico em casa. “Os brasileiros são super agradáveis”, diz ela. “Não se trata de um lugar onde você não se sente bem-vindo.”

Ao ingressar na faculdade, Merav pensou em ser diretora de cinema. Mas no terceiro ano, ela se apaixonou pela física: diplomou-se em física quanto e obteve um doutorado em estudos do plasma.

Os plasmas e os campos magnéticos que os animam se tornaram constantes em sua carreira. Ela acredita ter sido atraída pelo tema, por saber que não poderia dominá-lo. “O plasma é complexo”, diz ela. “Eu sabia que era algo no que eu não poderia facilmente focar. Eu teria que me esforçar para isso.” Ela acrescenta: “Eu achava o tema maior do que eu. Foi assustador, mas eu gostei do medo.”


Imagem do Voyager 2. (NASA)

A Física é uma disciplina notoriamente dominada pelo sexo masculino, o que pode ter desencorajado muitas mulheres com as ambições de Merav. Mas seu pai, diz ela, sempre reforçou em suas filhas que elas poderiam fazer o que quisessem. “Meu pai sempre dizia, ‘Por que não? Não há ninguém que o impeça de fazê-lo.” Ela suspeita que os obstáculos imposto `as mulheres por causa do sexismo na ciência era uma idéia que nem passava pela cabeça do pai.

(Essa confiança que o pai inspirava nas filhas aparentemente funcionou para ambas irmãs – Michal Lipson é uma conhecida engenheira nanofotônica na Universidade de Cornell e é beneficiária de uma bolsa para “gênios” da Fundação MacArthur, por seu trabalho nas inovações em computação).

Uma estrela sozinha

Merav prosperou na escola de pós-graduação em São Paulo. “Amo o caos. Amo a criatividade dos brasileiros”, diz ela, que admira a capacidade de improvisar soluções para superar limitações orçamentais. Mas motivada para encontrar oportunidades que o Brasil não poderia oferecer, em 1999, ela optou por um pós-doutorado na Universidade da Califórnia (UCLA), em Los Angeles.

Ela recorda que este movimento foi assustador no começo: a mudança cultural foi um choque e o departamento de física do plasma da UCLA não tinha nenhuma mulher; havia apenas uma alma feminina estudando no programa de pós-graduação. “Eu realmente me sentia como um peixe fora d’água”, diz ela. Merav vislumbrou, ainda, a necessidade de se afastar de seus interesses iniciais para seguir os caminhos da astrofísica, onde “ela podia ver a física do plasma em ação, muito mais do que se via no laboratório.” Em 2001 ela parou para pensar quais seriam seus próximos passos.

Foi nesta época que ela conheceu Paulett C. Liewer, gerente de projeto no Jet Propulsion Laboratory (JET-Laboratório de Propulsão), uma física que tinha interesses idênticos aos dela (e era mesmo uma das poucas mulheres no campo). Liewer a contratou imediatamente para trabalhar com dados transmitidos do exterior do Sistema Solar pela nave espacial Voyager.

Esses foram os dados os quais ela acabou analisando ao longo de sua carreira – primeiro, por quatro anos no JPL, e depois por sete na Universidade George Mason. Em 2011, Merav, mudou-se para a área de Boston, a poucos minutos de metrô de seu novo escritório na Universidade de Boston.

Merav tem focado na determinação da forma precisa da heliosfera. Durante décadas, todo o conhecimento aceito em astronomia era de que a forma da heliosfera era bastante simétrica e parecida à de um cometa, com uma cabeça esférica em torno do sol e uma cauda na direcao contraria do movimento do sistema solar. As irregularidades podem ser atribuídas às flutuações da atividade solares ao longo do tempo.


A antiga vista da heliosfera (NASA)

Merav, no entanto, como alguns outros poucos astrônomos, estava certa de que o campo magnético interestelar poderia distorcer significativamente a forma e orientação da heliosfera. Em 2006, ela, Liewer, e Edward C. Stone of Caltech publicaram um modelo no Astrophysical Journal, que previu uma heliosfera assimétrica e com forma de bala, empurrada em seu hemisfério sul e com uma protuberância no hemisfério norte, e em um ângulo em relação ao plano do campo magnético da Via Láctea.

No ano seguinte, a Voyager 2 inesperadamente entrou na região de terminação do choque da heliosfera (onde o vento solar se expande, torna-se cada vez mais fino e perde a força. De repente, um anel lento e turbulento forma-se em torno a ele), provando que a extensão sul da heliosfera estava mais perto do que o norte e precisamente justificando o modelo de Opher. Esse sucesso a ajudou a receber a prestigiada bolsa da National Science Foundation e um Presidential Early Career Award concedido pela presidência de George W. Bush, em 2008.

O trabalho mais recente de Merav revelou o que pode ser um nível ainda mais complexo de estrutura exterior da heliosfera: a regiao da heliosfera, chamada de heliosheath, tem sido geralmente retratada como uma camada relativamente fina, um plasma energizado que flui suavemente. Mas uma análise dos dados da Voyager feito por Drake Opher e Maryland em 2011 sugere que a heliosheath é na verdade um aglomerado espesso de “bolhas” de plasma de 100 milhões de milhas de diâmetro. O campo magnético do Sol torna-se cada vez mais pregueado e dobrado no plasma da heliosfera exterior, Merav explica; na heliosfera, pedaços do campo magnético podem se separar e se re-conectar nas estruturas auto-organizadas das bolhas.


A nova visão da heliosfera. (NASA)

Se a sugestão de Merav ainda requerer mais observações, isso poderia forçar os astrônomos a repensarem algumas das suas idéias sobre os raios cósmicos. “A heliosheath é um escudo”, ela explica: seu plasma pára algumas partículas altamente energéticas chamadas raios cósmicos, de entrarem no Sistema Solar. Se a estrutura da heliosheath é inconsistente, então o escudo tem buracos. Pode ser que ela esteja parando menos raios cósmicos do que pensamos, ou pode ser que esteja parando mais, no caso que estiverem absorvendo as partículas mais eficientemente. A mudança de direção pode afetar os modelos astrofísicos acerca dos fenômenos que produzem os raios cósmicos e os níveis de radiação que cobrem os planetas em torno a outras estrelas, por exemplo.

Infelizmente, as impressões magnéticas das bolhas são tão fracas que passam perto do limiar de detecção dos magnetômetros do Voyager. A melhor maneira de verificar a existência das bolhas seria lançar uma nova sonda para o exterior da heliosfera, aquela que poderia ter o benefício de um sistema de propulsão mais rápido de instrumentação que não estiver 35 anos fora da data.

Por essa razão, Opher tentou ao máximo possível conseguir apoio para essa missão. Segundo ela, é como se as Voyagers estivessem “gritando urgentemente, ‘Enviem um melhor instrumento! Há tanto para aprender!’”

Foto no alto: Reuven Opher com suas filhas, Merav e Michal (hoje, Lipson) e uma amiga. Arquivo pessoal/Merav Opher.

John Rennie é o diretor de redação da Txchnologist. Ele foi editor-chefe da Scientific American entre 1994 e 2009 e professor adjunto no Programa de reportagem em Ciência, Saúde e Meio-Ambiente da New York University. Siga o John no Twitter @tvjrennie.



Raios ascendentes são registrados pela primeira vez no Brasil

Site Inovação Tecnológica
Com informações do INPE




Os raios ascendentes foram gravados por uma câmera de alta velocidade, capaz de registrar 4.000 quadros por segundo.[Imagem: INPE/ELAT]


Raios inéditos

O Grupo de Eletricidade Atmosférica (ELAT) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) capturou pela primeira vez imagens de raios ascendentes no Brasil.

Quatro raios ascendentes que tiveram início a partir de uma das torres situadas sobre o Pico do Jaraguá, na cidade de São Paulo, foram registrados em um intervalo de apenas vinte minutos.

Eles foram gravados por uma câmera de alta velocidade, capaz de registrar 4.000 quadros por segundo. Estas observações poderão contribuir para aperfeiçoar as normas de proteção contra raios no país.

"Esta é a primeira comprovação de ocorrência de raios deste tipo no Brasil", afirmou Marcelo Saba, pesquisador do ELAT/INPE e responsável pelas observações.

O registro de quatro raios ascendentes foi algo que chamou a atenção dos pesquisadores.

Este é um número muito alto, ainda mais quando considerado o pequeno intervalo de tempo. Para comparação, no Empire State Building, edifício que foi construído com mais de 100 metros na cidade Nova Iorque, ocorrem em média 26 raios ascendentes por ano.

Raios ascendentes e raios descendentes

A grande maioria dos raios (99%) é nuvem-solo, ou seja, raios que se originam nas nuvens e chegam ao chão.

Apenas 1% dos raios é ascendente - partem de algo na superfície.

Esses percentuais apenas se alteram em locais específicos, construções muito altas, onde o número de raios ascendentes pode superar os raios nuvem-solo.

Os raios ascendentes são em geral artificiais, no sentido de responder às alterações ambientais produzidas pela atividade humana. Eles se originam devido a construções elevadas, como torres de telecomunicação, ou pára-raios de edifícios altos.

Os pesquisadores afirmam que estudos poderão estimar qual a frequência e quais as condições (como a altura das estruturas e os tipos de nuvens e tempestades) para que o fenômeno ocorra.

A pesquisa também poderá aprimorar os sistemas de detecção de descargas atmosféricas que monitoram a incidência de raios no Brasil.

Raios em turbinas eólicas

Em alguns países, como o Japão, raios ascendentes têm trazido grandes prejuízos quando atingem turbinas de geração eólica.

Como este tipo de geração de energia tem grandes chances de expansão e aplicação no Brasil, torna-se relevante intensificar as pesquisas no país, que apresenta a maior incidência de raios do mundo.

Poucos países possuem imagens deste fenômeno, entre eles os Estados Unidos, o Canadá, o Japão e a Áustria.

Ainda assim, há pouco conhecimento sobre a física e as características dos raios ascendentes, o que torna este registro ainda mais importante para as pesquisas.



Vida na Terra é vista refletida no brilho da Lua

Site Inovação Tecnológica
Com informações do ESO

A técnica inovadora utilizada por uma equipe internacional pode levar a futuras descobertas de vida em outros locais do
Universo. [Imagem: ESO/B. Tafreshi/TWAN]





Luz cinérea

Ao observar a Lua com o Very Large Telescope do ESO, astrônomos encontraram evidências de vida... na Terra.

Encontrar vida no nosso planeta pode parecer algo trivial, mas a técnica inovadora utilizada por uma equipe internacional pode levar a futuras descobertas de vida em outros locais do Universo.

"Usamos uma técnica chamada observação da luz cinérea para observar a Terra como se ela fosse um exoplaneta," diz Michael Sterzik. "O Sol ilumina a Terra e essa radiação é refletida para a superfície da Lua. A superfície lunar atua como um espelho gigante e reflete a radiação terrestre de volta à Terra - é essa radiação que observamos com o VLT."

A luz cinérea, às vezes chamada de "Lua velha nos braços da Lua nova", pode ser vista facilmente a olho nu e torna-se espetacular com binóculos. O melhor momento para vê-la é quando a Lua se apresenta em crescente fino, cerca de três dias antes ou depois da Lua Nova. Além do crescente luminoso, o resto do disco lunar é visível, fracamente iluminado pela Terra brilhante no céu lunar.

Assinatura biológica

Os astrônomos analisaram a fraca luz cinérea procurando indicadores, tais como algumas combinações de gases existentes na atmosfera terrestre, que são marcadores de vida orgânica.

Este método estabelece a Terra e a Lua como um referencial na futura procura de vida em planetas extrassolares, circundando outras estrelas.

Na atmosfera terrestre, os principais gases produzidos biologicamente são o oxigênio, o nitrogênio, o metano e o dióxido de carbono. Todos eles podem estar presentes naturalmente na atmosfera de um planeta sem que seja necessária a presença de vida.

O que constitui uma assinatura biológica é a presença simultânea destes gases em quantidades compatíveis com a presença de vida. Se a vida desaparecesse de repente e estes gases deixassem de ser produzidos, iriam reagir e recombinar-se. Alguns desapareceriam rapidamente e as assinaturas biológicas características desapareceriam com eles.

Espectropolarimetria

Essas impressões digitais da vida, ou assinaturas biológicas, são difíceis de encontrar por métodos convencionais, mas a equipe foi pioneira de uma nova metodologia, que é bastante sensível.

Em vez de procurar apenas quão brilhante é a radiação refletida em diferentes cores, observa-se também a polarização da radiação, uma técnica chamada espectropolarimetria.

Quando a radiação está polarizada, as suas componentes de campo elétrico e magnético têm uma orientação específica, enquanto, na radiação não-polarizada, a orientação dos campos é aleatória, sem direções privilegiadas.

A técnica utilizada em alguns cinemas 3D consiste em usar luz polarizada: imagens separadas feitas com radiação diferentemente polarizada são enviadas aos nossos olhos esquerdo e direito por meio de filtros polarizadores nos óculos.

Ao aplicar esta técnica à luz cinérea observada com o VLT, as assinaturas biológicas na radiação refletida da Terra aparecem sem margem para dúvidas.

A luz refletida na Lua é fortemente polarizada - a polarização e a intensidade da luz em diferentes cores permite avaliações muito precisas da presença de vida. [Imagem: ESO/L. Calçada]


"A radiação emitida por um exoplaneta distante é muito fraca relativamente ao brilho da sua estrela hospedeira, por isso é muito difícil de analisar - é um pouco como estudar um grão de poeira que se encontre ao lado de uma lâmpada muito brilhante.

"Mas a radiação refletida pelo planeta é polarizada, enquanto a radiação emitida pela estrela hospedeira não. Por isso, as técnicas de polarimetria nos ajudam a isolar a fraca radiação refletida de um exoplaneta relativamente à brilhante radiação estelar," explica Stefano Bagnulo, coautor do estudo.

A equipe estudou tanto a cor como o grau de ionização da radiação emitida pela Terra após a sua reflexão pela Lua, tal como se a luz viesse de um exoplaneta, e conseguiu deduzir que a atmosfera terrestre é parcialmente nublada, que parte da superfície se encontra coberta por oceanos e - mais importante ainda - que existe vegetação.

A equipe conseguiu inclusive detectar variações na cobertura de nuvens e na quantidade de vegetação em épocas diferentes, correspondentes às diferentes partes da Terra que refletiam radiação na direção da Lua.

Capacidade de encontrar vida

"Encontrar vida fora do Sistema Solar depende de duas coisas: primeiro, se essa vida existe efetivamente, e, segundo, se temos capacidade técnica para detectá-la," acrescenta Enric Palle, outro membro da equipe. "Este trabalho dá um passo importante na direção de atingirmos tal capacidade."

"A espectropolarimetria pode nos dizer, em última análise, se vida vegetal simples - baseada em processos de fotossíntese - emergiu em outras partes do Universo," conclui Sterzik. "Mas não estamos certamente à procura de homenzinhos verdes ou evidências de vida inteligente."

A nova geração de telescópios, tais como o E-ELT (European Extremely Large Telescope), poderá muito bem nos trazer a tão esperada confirmação de que a Terra não é o único planeta portador de vida na imensidão do espaço.

Bibliografia:

Biosignatures as revealed by spectropolarimetry of Earthshine
Michael F. Sterzik, Stefano Bagnulo, Enric Palle
Nature
Vol.: 483, 64-66
DOI: 10.1038/nature10778