9 de jul. de 2010

Buraco negro está enchendo bexiga cósmica

Site Inovação Tecnológica

ESO - 08/07/2010



Micro-quasar

Combinando observações obtidas com o Very Large Telescope do Observatório Europeu do Sul (ESO) e o telescópio de raios X Chandra da NASA, astrônomos descobriram o mais poderoso par de jatos cósmicos já observados, ejetados por um buraco negro estelar.

Este objeto, também conhecido como um micro-quasar, está enchendo uma enorme bolha de gás quente, com uma dimensão de 1.000 anos-luz, duas vezes maior e dezenas de vezes mais poderoso do que outros micro-quasares conhecidos.

"Ficamos espantados com a quantidade de energia injetada no gás pelo buraco negro," diz o autor principal do estudo, Manfred Pakull. "Este buraco negro tem apenas algumas massas solares, mas é uma verdadeira versão em miniatura dos mais poderosos quasares e rádio-galáxias, os quais contêm buracos negros com massas de alguns milhões de vezes a massa do Sol."

Bexiga cósmica

Os buracos negros são conhecidos por liberarem enormes quantidades de energia enquanto engolem matéria.

Acredita-se que a maior parte desta energia é liberada sob a forma de radiação, essencialmente nos comprimentos de onda dos raios X.

No entanto, esta nova descoberta mostra que alguns buracos negros podem liberar até mais energia sob a forma de jatos colimados de partículas em altíssima velocidade.

Os jatos super rápidos chocam-se com o gás interestelar circundante, aquecendo-o e fazendo esse gás se expandir - é como se o buraco negro estivesse enchendo uma bexiga de aniversário. A bolha insuflada contém uma mistura de gás quente e partículas ultra-rápidas a diferentes temperaturas.

Observações feitas em diferentes comprimentos de onda (óptico, rádio e raios X) ajudam os astrônomos a calcular a taxa total na qual o buraco negro aquece seu meio circundante.

Fôlego de buraco negro

Os astrônomos observaram as zonas onde os jatos chocam-se com o gás interestelar que circunda o buraco negro, revelando que a bolha de gás quente está crescendo a uma velocidade de quase um milhão de quilômetros por hora.

"O tamanho dos jatos na NGC 7793 é impressionante, quando comparado com o tamanho do buraco negro a partir do qual são ejetados," diz o coautor Robert Soria. "Se o buraco negro fosse do tamanho de uma bola de futebol, cada jato estender-se-ia da Terra até para além da órbita de Plutão."

Detecção dos buracos negros

Este trabalho ajudará os astrônomos a compreender a semelhança entre os buracos negros pequenos, formados de explosões de estrelas, e os buracos negros super-maciços, que se encontram no centro das galáxias.

Jatos muito poderosos ejetados a partir de buracos negros super-maciços têm sido observados há algum tempo, mas pensava-se que seriam menos frequentes nos micro-quasares. A nova descoberta sugere que muitos deles podem simplesmente ter escapado à detecção até agora.

O buraco negro que está soprando o gás situa-se a 12 milhões de anos-luz de distância, na periferia da galáxia espiral NGC 7793. A partir do tamanho e da velocidade de expansão da bolha, os astrônomos descobriram que estes jatos estão provavelmente ativos há pelo menos 200.000 anos.

Tamanho dos buracos negros

Os astrônomos não têm ainda uma maneira de medir o tamanho do buraco negro propriamente dito.

O menor buraco negro descoberto até hoje tem um raio de cerca de 15 km. Um buraco negro estelar médio, com cerca de 10 massas solares, tem um raio de 30 km, enquanto um buraco negro "grande" pode ter um raio de 300 km.

O que é sempre muito menor do que os jatos emitidos por eles, que se estendem até cerca de várias centenas de anos-luz de cada lado do buraco negro, ou seja cerca de vários milhares de bilhões de quilômetros!

Bibliografia:

A 300-parsec-long jet-inflated bubble around a powerful microquasar in the galaxy NGC 7793
Manfred W. Pakull, Roberto Soria, Christian Motch
Nature
10.1038/nature09168
Vol.: 466, Pages: 209-212
DOI: 10.1038/nature09168

Vênus pode ter sido um planeta habitável?

Site Inovação Tecnológica

ESA - 02/07/2010



A sonda espacial Vênus Express, da Agência Espacial Europeia (ESA), está dando aos astrônomos informações que parecem sustentar a possibilidade de Vênus ter tido condições de vida no passado.

Caso essa possibilidade se confirme, a história do planeta pode ter começado como um planeta habitável muito semelhante à Terra atual.

Semelhanças entre Terra e Vênus

Hoje, a Terra e Vênus são completamente diferentes. A Terra é um mundo luxuriante, repleto de vida, enquanto Vênus é literalmente infernal, com a sua superfície fervendo a temperaturas superiores às de um forno de cozinha.

Apesar das diferenças, os dois planetas partilham inúmeras semelhanças - por exemplo, eles têm praticamente o mesmo tamanho. Agora, graças à Vênus Express, os cientistas planetários estão verificando que há outras semelhanças.

"A composição elementar de Vênus e da Terra é muito semelhante", diz Hakan Svedhem, cientista da Vênus Express, referindo-se à quantidade de cada elemento químico presente nos dois planetas.

Águas de Vênus

Mas há também diferenças radicais, uma das quais salta à vista: Vênus tem muito pouca água.

Se a água dos oceanos terrestres fosse espalhada uniformemente pela superfície da Terra seria formada uma camada com 3 km de profundidade. Se todo o vapor de água presente na atmosfera de Vênus pudesse ser condensada, formar-se-ia um lago raso pelo planeta, com meros 3 cm de profundidade.

Mas pode ter havido semelhanças também na água - pelo menos no passado. Há bilhões de anos, Vênus tinha provavelmente muito mais água: a Vênus Express confirmou que o planeta perde uma grande quantidade de água para o espaço.

Isto acontece porque a radiação ultravioleta do Sol atravessa a atmosfera de Vênus, quebrando as moléculas em dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio. E estes átomos acabam escapando para o espaço.

Esse processo de "vazamento da atmosfera" também acontece na Terra - vejaMilhares de toneladas da atmosfera são perdidas no espaço anualmente.

A Vênus Express mediu a taxa com que estes gases escapam de Vênus e confirmou que a taxa de escape do hidrogênio é duas vezes superior à do oxigênio. Foi esta relação de dois para um, a mesma proporção entre átomos de hidrogênio e oxigênio na molécula de água, que fez os cientistas concluírem que a água é a fonte desses íons que vazam do planeta para o espaço.

Oceanos de Vênus




Adicionalmente, eles verificaram que uma forma de hidrogênio pesado, chamado deutério, está tendo sua concentração progressivamente nas camadas mais elevadas da atmosfera de Vênus, já que, para o hidrogênio pesado, não é tão fácil escapar.

"Tudo indica que tenha havido grandes quantidades de água em Vênus, no passado," diz Colin Wilson, da Universidade de Oxford, no Reino Unido.

Mas isto não significa, necessariamente, que tenha havido oceanos na superfície do planeta.

Eric Chassefière, da Universidade Paris-Sud, na França, desenvolveu um modelo computacional que sugere que a água tenha sido abundante sobretudo na atmosfera, e apenas em tempos muito primitivos, quando a superfície do planeta estava totalmente fundida.

À medida que as moléculas de água se separavam em átomos, pela ação da luz do Sol, e escapavam para o espaço, a consequente queda na temperatura desencadeou provavelmente a solidificação da superfície. Em outras palavras: Vênus provavelmente nunca teve oceanos.

Vida em Vênus

Apesar de ser difícil testar esta hipótese, esta é uma questão essencial. Se Vênus algum dia teve tido água na superfície, seria possível que o planeta tivesse passado por uma fase inicial de habitabilidade para formas de vida semelhantes às da Terra atual.

Mesmo estando correto, o modelo de Chassefière não exclui a hipótese de que cometas que colidem com o planeta tenham trazido água adicional depois da superfície de Vênus ter cristalizado, criando zonas com água em que vida tivesse tido condições para se formar.

Há muitas questões em aberto. "São precisos modelos mais extensos do sistema magma oceano e atmosfera e da sua evolução para que se perceba a evolução do jovem planeta Vênus," diz Chassefière.

FENÔMENO SOLAR

O Globo - 07/07/2010

Primeiro eclipse total do Sol este ano só será observado da Ilha de Páscoa

Renato Grandelle

RIO - Enquanto o planeta estiver se preparando para assistir à final da Copa da África do Sul, no próximo domingo, 4 mil pessoas só terão olhos para o céu na Ilha de Páscoa, no meio do Oceano Pacífico. A ilha, situado a 3.700 quilômetros da costa chilena, é o único reduto em terra firme onde será possível acompanhar o primeiro eclipse total do Sol este ano. A expectativa é de que o fenômeno, que terá duração de 4 minutos e 45 segundos, possibilite medições mais exatas do diâmetro solar.

Quatro pesquisadores do Observatório Nacional já chegaram à ilha, e agora dedicam-se à escolha dos melhores lugares para acompanhar o eclipse - a equipe não quer ser prejudicada por problemas climáticos que atrapalhem os trabalhos, como a ocorrência de nuvens. Na bagagem do grupo está um heliômetro, equipamento em operação há sete meses que fornece imagens de alta precisão do diâmetro solar.

- Usamos o equipamento para monitorar diariamente o diâmetro do Sol. É possível conhecê-lo definindo dois pontos extremos e, depois, analisando a velocidade de rotação da Terra. Esta é a velocidade que o Sol vai demorar para passar de um ponto para o outro - explica Jucira Penna, astrônoma do Grupo de Instrumentação e Referência em Astronomia Solar, vinculado ao Observatório. - O eclipse nos possibilita uma medida mais precisa do diâmetro.

Diversas perguntas relacionadas ao Sol não encontram mais do que pontos de interrogação entre os astrônomos. Não há consenso sobre o diâmetro do corpo celeste, embora todos saibam que este tamanho é variável. E por que é assim? Ninguém sabe.

Um grupo científico internacional dedica-se a pesquisar o clima espacial, os eventos que se encaixam na interface entre Sol e Terra. Eventuais transformações na radiação solar, por exemplo, provocam reflexos em áreas totalmente distintas, como a transmissão de energia, as telecomunicações, a vazão de rios e até as mudanças climáticas. Além de medir o diâmetro solar, a equipe brasileira também espera comprovar experimentalmente certos princípios da Teoria da Relatividade de Einstein, que ganhou notoriedade após um eclipse em Sobral, no interior cearense, em 1919.

- Apesar de a teoria já ter sido confirmada naquela ocasião, queremos observar o desvio da luz de uma estrela ao passar perto de uma grande massa: no caso, o Sol - diz Jucira. - Escolhemos uma estrela já muito estudada, integrante da constelação de Escorpião, para fazer esta experiência.

Medições chegarão à Ilha de Trindade

Antes do heliômetro, o Observatório Nacional contava apenas com um astrolábio, que faz medições diárias do Sol desde 1997. O velho equipamento será mantido em operação por mais dois anos.

O Observatório também prepara o desenvolvimento de um segundo heliômetro, cuja base será a Ilha de Trindade, a cerca de 1.200 quilômetros de distância do litoral brasileiro.

- Na ilha trabalharemos com condições climáticas completamente distintas. Por estar totalmente fora de centros urbanos, teremos menos turbulência e maior nitidez do céu - compara Jucira.

Telescópio europeu divulga imagem inédita do Universo

Folha de São Paulo - 06/07/2010

FOCO



ESA

DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS

A Agência Espacial Europeia divulgou ontem uma imagem panorâmica inédita do Universo. É uma fotografia excepcionalmente grande, que surgiu da soma de várias fotos menores tiradas pelo telescópio espacial Planck ao longo de seis meses.

A faixa iluminada no meio da imagem é a Via Láctea, galáxia que abriga a Terra. O Planck não detecta a luz das estrelas, mas sim a radiação que as nuvens de gás e poeira ao redor emitem. Os cientistas terão acesso a mais fotos assim nos próximos anos.

O objetivo do Planck é estudar a radiação cósmica de fundo, um "eco" deixado pelo Big Bang. Os astrônomos acreditam que isso ajudará a entender melhor a formação do Universo e das galáxias.

A importância de não saber

Folha de São Paulo - 04/07/2010

Marcelo Gleiser
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Experimentos sem teoria são prosaicos e teorias sem experimentos são cegas;
Einstein concordaria.
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Vivemos em tempos privilegiados. Ao menos no que diz respeito à cosmologia e à física de partículas. Para um cientista, nada mais empolgante do que ter em mãos novas tecnologias capazes de testar teorias. Às vezes, são décadas antes que máquinas possam investigar realidades distantes do nosso dia a dia. Mas, um dia, as ideias são testadas. E aí, é a glória ou a lata de lixo.

A história da cosmologia nos últimos cem anos ilustra bem isso. Albert Einstein foi o primeiro a propor um modelo para o cosmo, baseado em sua teoria da gravidade, a relatividade geral. Isso se deu em 1917, antes de ele ter qualquer razão para supor um Universo que muda com o tempo. Daí ter proposto o mais simples, um cosmo estático e esférico.

Entre 1917 e 1929, ano em que Edwin Hubble descobriu a expansão cósmica, vários modelos surgiram, com todo o tipo de comportamento. Em 1922, o russo Alexandre Friedmann sugeriu que o cosmo poderia expandir-se para sempre ou chegar a um tamanho máximo e se contrair. Daí, poderia alternar expansão e contração indefinidamente.

Einstein não gostou das ideias de Friedmann. Mas em 1931 acabou se convencendo, após visitar Hubble no Observatório do Monte Wilson, nos EUA. Precisou de dados concretos para mudar de ideia.

O próximo episódio ocorreu no final da década de 1940. Três físicos ingleses, desiludidos com a ideia de que o Universo poderia ter tido um começo e, portanto, uma história, propuseram o "estado padrão", no qual o Universo era eterno. Com isso, queriam se livrar da conexão inevitável com o Gênesis. Para ser compatível com a expansão, sugeriram que matéria era criada para compensar sua diluição, mantendo o cosmo num estado padrão.

No meio tempo, George Gamow, físico russo residindo nos EUA, propôs o modelo do Big Bang, no qual o cosmo surge de uma singularidade no passado. Junto com Ralph Alpher e Robert Hetman, calculou que deveria existir uma radiação por toda parte, um fóssil de quando os primeiros átomos de hidrogênio foram formados. Em 1965, a radiação primordial foi encontrada e o modelo do estado padrão, que não podia explicá-la, foi abandonado.

Hoje, temos duas observações ainda não explicadas. Primeiro, que galáxias são circundadas por um véu de matéria escura, um tipo de matéria que não produz a própria luz e interage apenas gravitacionalmente com a matéria comum. Segundo, que a expansão cósmica está acelerando. O culpado dessa pressa celeste tem um nome, "energia escura". Mas só isso.

Sabemos que a matéria escura representa 23% do material cósmico, enquanto que a energia escura representa cerca de 70%. Mas não sabemos do que são feitas. Imagino que a energia escura esteja relacionada com o vazio. Pois é, é possível que a componente dominante do Universo venha do nada. Devido ao princípio da incerteza da física quântica, não existe o vazio: flutuações de energia vindas do nada podem criar matéria, numa dança perpétua de criação e destruição.

Em ciência, é bom não saber. Precisamos de dados para decidir. Afinal, experimentos sem teoria são prosaicos e teorias sem experimentos são cegas. Acho que Einstein concordaria com isso.

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MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor do livro "Criação Imperfeita"

1 de jul. de 2010

Para entender o Universo

Correio Braziliense – 30/06/2010

Gisela Cabral

Projeto hispano-brasileiro construirá telescópio para estudar a teoria da energia escura, uma das possíveis explicações para o fato de o cosmos se expandir de forma acelerada.

Os telescópios funcionam como uma extensão dos olhos humanos direcionada ao espaço, capaz de enxergar objetos a milhares de quilômetros da Terra. Cada vez mais modernos, esses equipamentos são considerados fundamentais para testar novas teorias sobre a formação e o comportamento do cosmos, exatamente o principal objetivo do projeto hispano-brasileiro Javalambre PAU Astrophysical Survey (J-PAS), que prevê a construção de um telescópio específico para o estudo da energia escura, considerada uma das variáveis fundamentais da expansão do Universo.

A teoria da energia escura é bastante controversa e recente, tendo cerca de 10 anos. Surgiu a partir da comprovação de que o Universo se comporta de maneira exatamente oposta da que os cientistas imaginavam. Em vez de se expandir cada vez mais lentamente — como era de se esperar, pois a gravidade exercida pelos corpos que compõem o cosmos deveria frear esse movimento —, o Universo na verdade evolui de forma cada vez mais veloz.

Essa constatação foi possível graças à observação de que as supernovas mais longínquas da Terra apresentam a luz mais tênue do que seria de se esperar. Ou seja, elas estão a uma distância maior do que a prevista. O fato deixou os cientistas surpresos e uma das teorias que surgiram foi a de que alguma forma de energia — denominada energia escura — seria responsável pela aceleração imprevista.

O pesquisador do Observatório Nacional (ON) e participante do J-PAS Jaílson Alcaniz conta que a descoberta causou na comunidade científica uma surpresa comparável à que uma pessoa sentiria se jogasse um objeto para o alto e não o visse mais retornar ao chão. “Uma combinação impressionante de resultados observacionais vem revelando consistentemente que o Universo está se expandindo aceleradamente, em vez de desacelerar. Mas sendo a gravidade uma força atrativa, as galáxias deveriam frear a velocidade de expansão, conforme ensinado durante décadas por físicos e astrônomos”, diz.

Para investigar a energia escura, uma equipe de cientistas de Espanha e Brasil participará da construção de um telescópio de 2,5m de diâmetro, a ser erguido em Teruel, cidade do país europeu. Ao todo, 15 pesquisadores brasileiros de várias instituições, coordenadas pelo ON, integram o projeto. O telescópio será formado por uma câmera com 14 dispositivos de carga acoplada (CCDs) de 10,5 mil pixels cada, sendo capaz de gerar imagens de 1,5GB. De acordo com os especialistas, a câmera será, em grande parte, concebida e gerenciada pelo Brasil. Isso significa que o investimento deve resultar em retorno imediato para o país em termos de inovação e tecnologia, que poderá ser explorado pela indústria nacional.

Observações

Depois de pronto, o telescópio será instalado no Pico de Buitre, situado na Serra de Javalambre, a 1.957m de altitude. “A região é uma das mais escuras da Europa”, garante o pesquisador do ON e coordenador principal do projeto no Brasil, Renato Dupke. Segundo ele, o telescópio ainda cobrirá uma quantidade sem precedentes de áreas (1) astronômicas. “Desde asteroides, passando por estrelas, nossa galáxia, aglomerados e superaglomerados de galáxias, supernovas, quasares, entre várias outras”, enumera.

O início das observações está previsto para 2012, sendo que os resultados preliminares devem ser divulgados dois anos depois. “A previsão é que todo o projeto custe por volta de 17 milhões de euros. Os espanhóis já levantaram cerca de 15 milhões de euros para iniciar a construção do telescópio. O Brasil entrará com os custos para a construção da câmera especial”, afirma Renato Dupke.

Para ele, a parte nacional do projeto (PAU-Brasil) permitirá que os pesquisadores do país tenham uma experiência direta na organização e na realização de um projeto de grande porte. “Temos a presença de brasileiros nos comitês de deliberação, em setores-chave da organização e como coordenadores de grupos de trabalho. Além disso, o Brasil terá prioridade no uso do equipamento, o que permitirá uma competição mais justa entre pesquisadores brasileiros e de países mais ricos”, informa o cientista.

Cada vez mais longe

O primeiro telescópio apontado para o céu pelo cientista Galileu Galilei, há cerca de 400 anos, foi o pontapé inicial para o surgimento de equipamentos cada vez mais modernos. Segundo a astrônoma brasileira que atua na Agência Espacial Norte Americana (NASA) Duilia de Mello, hoje temos uma grande quantidade de telescópios de última geração e, por meio deles, tem sido possível visualizar objetos cada vez mais distantes. “Atualmente, os telescópios estão maiores e os detectores estão mais sensíveis. Com isso, conseguimos visualizar objetos nos confins do universo, o que não era possível antes”, destaca.


Cosmologia: de Einstein à energia escura

Por Jaílson S. Alcaniz

Qualquer pessoa que já tenha arremessado um objeto para o alto e o viu retornar para a Terra ficaria surpresa em saber dos últimos resultados das observações astronômicas. Isso porque uma combinação impressionante de resultados observacionais envolvendo medidas de distância extragalácticas a partir de observatórios em terra e do telescópio espacial Hubble vêm revelando consistentemente que o universo está se expandindo aceleradamente. Esses resultados alteram drasticamente nossa visão tradicional do universo, pois sendo a gravidade uma força atrativa, as galáxias deveriam frear a velocidade de expansão, conforme ensinado durante muitas décadas por físicos e astrônomos. A origem ou natureza dessa aceleração cósmica é, por sua vez, considerada o maior mistério da física e da astronomia contemporâneas. Pela Teoria da Relatividade de Einstein, tal fenômeno só pode ser explicado postulando a existência de uma forma desconhecida de energia, denominada energia escura, cuja composição seria responsável por cerca de 3/4 da densidade total de energia do universo e cujo efeito gravitacional é repulsivo, superando a atração gravitacional entre as partes do mesmo.

Desde o seu nascimento na Grécia antiga, passando pela primeira grande revolução astronômica de Copérnico, Kepler, Galileu e Newton, até a segunda de Einstein, Friedmann e Hubble, as pesquisas no campo da cosmologia foram de fundamental importância para a formação de uma concepção científica da natureza. Atualmente, uma terceira revolução cosmológica parece estar em curso, revolução esta que é motivada por um conjunto de resultados observacionais independentes que indicam que a expansão atual do universo está acelerada, em direta contradição com a nossa experiência cotidiana de uma gravidade atrativa. Essas descobertas têm, por sua vez, profundas implicações não somente na astrofísica e na cosmologia, mas também na física teórica fundamental e, tal como ocorreu na Grécia antiga, durante o renascimento e no início do século passado, impelem novamente a cosmologia para a fronteira do conhecimento científico.

Nas linhas que se seguem, apresentaremos uma breve discussão sobre alguns desenvolvimentos importantes no campo da cosmologia bem como seu status atual. Discutiremos, com ênfase nos chamados pilares da Teoria do Big-Bang, o chamado modelo cosmológico padrão. Veremos como, no contexto da Teoria da Relatividade de Einstein, as observações atuais nos levam à idéia de uma componente de energia escura que domina a evolução atual do universo. Finalmente, discutiremos algumas implicações dessa idéia, assim como uma possível alternativa para ela.

Cosmologia de Einstein

Embora sendo a mais fraca dentre todas as quatro interações fundamentais da natureza, em grande escala é a gravitação a força dominante no universo. Dessa maneira, todo e qualquer modelo cosmológico tem como base uma teoria do campo gravitacional. A Teoria da Relatividade Geral de Einstein, por sua vez, constitui o coração do chamado modelo do Big-Bang ou modelo padrão da cosmologia.

A história da cosmologia moderna começou em 1917, com o próprio Einstein, quando este aplicou sua teoria da gravitação ao problema cosmológico. Contudo, ao fazer isso, ele encontrou então um sério problema a ser resolvido: suas equações de campo implicavam em um universo instável e que colapsaria sobre si próprio devido à ação de sua própria gravidade. Para produzir um universo estável (e estático), como imaginado por ele, Einstein precisou adicionar um novo parâmetro às suas equações, a chamada constante cosmológica (Λ), um termo de anti-gravidade capaz de compensar a instabilidade causada pela gravidade atrativa de toda a matéria contida no universo. Com Λ, Einstein tinha agora um universo estático e finito. O preço a ser pago: a inclusão de uma nova e desconhecida constante gravitacional na sua teoria da gravitação, até então uma teoria sem parâmetros livres.

Na realidade, o que levou Einstein a introduzir, em 1917, a constante cosmológica foi a suposição errônea de que o universo era estático. Em 1929, no entanto, o astrônomo americano Edwin Hubble mostrou que as galáxias estão continuamente afastando-se uma das outras, com as velocidades de recessão proporcionais às suas distâncias. A partir desses resultados, conhecidos como a Lei de Hubble, e assumindo que nós não ocupamos um lugar privilegiado no universo, Hubble concluiu que todo o universo está se expandindo. Esse estado de expansão cósmica ou recessão das galáxias havia sido previsto alguns anos antes, em 1922 e 1924, pelo físico e matemático russo Alexandr Friedmann, a partir de seus modelos de Big-Bang. Dado que o universo não é estático, Einstein prontamente concluiu que seu termo de anti-gravidade era completamente desnecessário, considerando-o como o maior erro de sua vida!

"Much later, when I was discussing cosmological problems with Einstein, he remarked that the introduction of the cosmological term was the biggest blunder of his life" (George Gamow)

Modelo cosmológico padrão

Os desenvolvimentos subseqüentes no campo da cosmologia, tanto teórica quanto observacional, estabeleceram as soluções obtidas por Friedmann, em 1922 e 1924, e por Einstein e de Sitter, em 1932, como o modelo padrão da cosmologia moderna. Nesse cenário, o universo inicia sua evolução a partir de uma grande explosão1 (Big-Bang) com densidade (1094 gramas/cm³) e temperatura (10³² K) extremamente elevadas, caracterizando assim o chamado estado singular inicial. A partir desse estágio, o universo, em expansão, esfriou rapidamente, o que permitiu a formação posterior das galáxias, estrelas e, finalmente, da vida.

As principais descobertas observacionais que sustentam a cosmologia do Big-Bang, também chamadas de pilares da cosmologia relativística, são:

A lei de Hubble: a prova mais direta da expansão cósmica.

A síntese dos elementos leves, ou nucleossíntese primordial: constitui um período da evolução cósmica (entre 0.02 a 180 segundos após a singularidade inicial) em que as taxas de expansão e esfriamento do universo sintetizaram prótons e nêutrons formando os elementos químicos leves, como o deutério, hélio e lítio.

A radiação cósmica de fundo: é uma radiação remanescente do universo primordial, cuja detecção em 1965 por Arno Penzias e Robert Wilson permitiu estabelecer as chamadas eras cósmicas, relacionando tempo e temperatura e, assim, determinar as condições físicas dominantes em cada estágio da evolução do universo. Esta radiação foi precisamente caracterizada pelo satélite COBE2 (Cosmic Background Explorer) como uma radiação de corpo negro com temperatura de T0 = 2.725 ± 0.001 K.

Quando combinados, esses e outros resultados observacionais dão pleno suporte à cosmologia relativística e confirmam muitas das previsões antecipadas pela Teoria da Relatividade Geral de Einstein.

Aceleração cósmica

Como disse anteriormente, qualquer pessoa que já tenha arremessado um objeto para cima e observou que este retorna à Terra ficaria espantado com os resultados recentes da cosmologia observacional (afinal de contas, tudo que sobe, desce, correto?). Esses resultados utilizam medidas de distância obtidas a partir da luminosidade de supernovas do tipo IA3 , e têm indicado consistentemente, desde 1998, que o universo está expandindo (como sabíamos desde Hubble) e em ritmo acelerado! No entanto, sendo a gravidade uma força atrativa (como sabemos desde Newton), como é possível que as partes do universo estejam se repelindo, causando essa aceleração cósmica? É isso compatível com a Relatividade Geral ou previsto pelo modelo padrão da cosmologia?

Gravidade repulsiva é perfeitamente compatível com a Teoria da Relatividade Geral. No entanto, para que tal regime seja possível, é preciso que a densidade de energia do universo seja dominada por uma matéria ou substância exótica, com pressão suficientemente negativa para gerar este regime de anti-gravidade.

O leitor mais atento poderia, neste ponto, indagar-se se a constante cosmológica Λ, aquele termo de anti-gravidade proposto por Einstein com o intuito de evitar o colapso gravitacional do universo sobre si próprio, poderia ser a chamada energia escura, a componente exótica responsável pela aceleração atual do universo. Embora com os desenvolvimentos da chamada Teoria Quântica de Campos, a constante cosmológica tenha adquirido um novo significado físico (sendo agora interpretada como a energia do estado fundamental de todos os campos quânticos da natureza), modelos cosmológicos com Λ são compatíveis com todas as observações cosmológicas atuais. Neste cenário, enquanto as densidades de energia da radiação e matéria (luminosa e escura) decrescem com a expansão do universo, a densidade de energia associada à constante cosmológica (Λ) permanece constante (um argumento semelhante também se aplica a outras formas de energia escura). Isto, por outro lado, significa que no universo primordial, Λ foi desprezível, passando a dominar a evolução do universo somente mais recentemente, cerca de 5-6 bilhões de anos atrás.

O leitor mais cético, por sua vez, poderia entender esses resultados observacionais, que apontam para um universo acelerado, como uma primeira evidência contrária à Relatividade Geral. Tal ponto de vista também é válido e tem sido bastante explorado na literatura científica atual através, por exemplo, da chamada Teoria de Branas ou Membranas. Essa teoria, motivada por expectativas teóricas da física de partículas, sugere que nosso universo observado seria uma membrana imersa numa dimensão espacial extra, a qual somente a gravidade poderia acessar. Os cenários cosmológicos baseados na Teoria de Branas fornecem resultados interessantes e conseguem explicar um número considerável de observações astronômicas, embora desenvolvimentos adicionais ainda sejam necessários para torná-los completamente viáveis.

Como o leitor, atento ou cético (ou ambos), pode notar, a pesquisa em energia escura constitui atualmente o principal desafio para físicos e astrofísicos teóricos ou experimentais. O entendimento completo da natureza da energia escura poderá confirmar ou não as previsões da Relatividade Geral ou ainda nos levar a uma física completamente nova, que vai muito além de Einstein e de suas previsões. Por outro lado, caso as pesquisas teóricas juntamente com os resultados observacionais continuem indicando a constante cosmológica de Einstein como a responsável pela aceleração do universo, Einstein, embora a tendo rejeitado e considerado seu maior erro, estaria mais uma vez correto. Bom, isso já não seria nenhuma surpresa, seria? Como James Joyce já dissera:

"A man of genius makes no mistakes. His errors are volitional and are the portals of discovery".

Jaílson Souza de Alcaniz é pesquisador na área de cosmologia na Coordenação de Astronomia e Astrofísica do Observatório Nacional/MCT no Rio de Janeiro.