24 de jan. de 2011

Folha de S. Paulo, 17 de janeiro de 2011


Grupo de astrônomos afirma que planeta-anão que acelerou essa mudança de status é menor que Plutão.

Os novos dados sobre Éris ainda não foram divulgados, mas a diferença entre os os dois deve ser pequena.


Nasa/divulgação
Concepção artística do planeta-anão Éris e seu satélite


GIULIANA MIRANDA

DE SÃO PAULO

No mês em que completa seis anos de descobrimento, o planeta-anão Éris e a sua participação no rebaixamento de Plutão à "série B planetária", em 2006, continuam causando polêmica.

Um grupo de astrônomos liderados por Bruno Sicardy, do Observatório de Paris, disse ter feito uma nova medição que comprovaria que Éris é menor do que Plutão.

Por enquanto, eles não dizem o quão menor. A justificativa, disse Sicardy em entrevista ao "New York Times", é que eles estão poupando o material para um grande artigo na revista científica "Nature".

Embora a diferença não deva passar de um punhado de quilômetros, o anúncio já foi suficiente para animar o grupo que quer rever o status de ex-planeta de Plutão.

O que se sabe, até agora, é que a nova medição foi feita no ano passado, aproveitando o momento em que uma estrela passou por trás de Éris, permitindo a visibilidade do experimento.

"Éris é claramente menor", disse Alain Maury, que também observou o fenômeno, no Observatório San Pedro de Atacama, no Chile.


REBAIXAMENTO

Em 2005, quando foi localizado em um ponto distante do Sistema Solar, Éris trouxe um problema para os astrônomos. Como seu diâmetro parecia maior do que o de Plutão, um planeta da "primeira divisão", só havia duas alternativas: reconhecê-lo como o décimo planeta ou rebaixar o outro.

A IAU (União Astronômica Internacional), resolveu colocar ordem na casa e criou uma série de critérios para classificar um planeta. Regras que, apesar de séculos de estudos astronômicos, ainda não existiam.

Com isso, nasceu também um novo conceito: o de planeta-anão, em que Éris e Plutão foram colocados.

Tanto cuidado tem várias explicações, mas um dos motivos mais fortes era o receio dos astrônomos de que, com os instrumentos de observação cada vez mais potentes, haveria uma enxurrada de novos planetas no nosso Sistema Solar.


TRABALHO DIFÍCIL

Batizado em homenagem à deusa grega da discórdia, Éris fica bem mais distante do Sol do que Plutão.

Além da distância, existe um outro complicador para medições precisas: a baixa luminosidade do Cinturão Kuiper, onde eles estão.

Nem mesmo o tamanho de Plutão é considerado definitivo. Nos mais de 80 anos desde seu descobrimento, a estimativa de seu diâmetro já mudou várias vezes.

Uma medição muito precisa deve acontecer em 2015, quando a sonda New Horizons, da Nasa chegar até ele.

Na opinião de Roberto da Costa, do IAG (Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP), mesmo que fique comprovado que Plutão é realmente maior do que Éris, isso não deve servir para devolvê-lo ao "primeiro escalão".

"Seja quem for que ganhe definitivamente essa disputa por tamanhos, o critério que separa planetas "clássicos" dos planetas-anões vai muito além disso", avalia.

"Um dos critérios para tanto é que o corpo deve ter "limpado gravitacionalmente a sua órbita, e Plutão não o faz", completa Costa.


Cientista "algoz" de Plutão ironiza debate

Folha de São Paulo - 17/01/2011

Descobridor do planeta-anão Éris, o astrônomo americano Michael Brown, do Caltech (Instituto de Tecnologia da Califórnia), é popularmente conhecido como o assassino de Plutão.

A alcunha não parece lhe incomodar e ele acabou batizando seu primeiro de divulgação científica de "How I Killed Pluto And Why It Had It Coming" (Como Matei Plutão e Por Que Ele Mereceu", em tradução livre).

Irritado com a repercussão das declarações dos outros pesquisadores sobre as diferenças de tamanho entre Éris e Plutão, Brown publicou um texto irônico e repleto de "alfinetadas" em seu blog.

O cientista levanta dúvidas sobre os métodos usados neste e em outros trabalhos e brinca: "às vezes, você simplesmente precisa ter mais fé em um tipo de medição do que em outro".

Brown diz ainda que há "algo de duvidoso" em relação ao tamanho de Plutão.

Em entrevista à fFolha há um mês, Brown disse que "ficou exultante" quando soube do resultado da do congresso da IAU (União Astronômica Internacional), que rebaixou Plutão em 2006.

O evento foi considerado um dos mais importantes eventos científicos daquele ano e catapultou o pesquisador para a lista das cem pessoas mais influente do mundo da revista Time.

Para Brown, que durante um breve período chegou a defender a manutenção de Plutão no primeiro escalão, a mudança de classificação foi acertada.(GM)

O instinto assassino (revisitado)

São Paulo, domingo, 16 de janeiro de 2011

MARCELO GLEISER


Se o medo é responsável pelo impulso assassino, o primeiro passo é a criação de meios para aliviá-lo.


Volto hoje à questão levantada na semana passada, sobre o "instinto assassino". Argumentei, então, que a espécie humana tem muito trabalho pela frente até atingir um patamar que podemos chamar de altamente civilizado. Chamei nossa propensão a matar nossos semelhantes de "instinto assassino". Ponderando essa denominação e conversando com colegas e leitores, acredito que um melhor termo seja "impulso" assassino.

De fato, "instinto" é associado a um padrão de comportamento inato, responsável por certos estímulos que são inerentes à criatura e não aprendidos. De alguma forma, devido ao processo de seleção natural, esses instintos fazem parte do código de comportamento do animal. Vemos tartarugas bebês, assim que saem dos ovos, irem em direção ao oceano, vemos os incríveis rituais de sedução dos pássaros, vemos a construção de ninhos.

Predadores matam para sobreviver. Nenhum animal mata por matar. As exceções existem, mas são poucas. A razão é simples: matar requer muita energia. Basta ver a exaustão de um leopardo após perseguir uma gazela na estepe africana. Imagino que adorariam um rifle para evitar aquela correria toda. Mas acho improvável que matariam sem ter fome.

Os humanos são a exceção. Claro, também matamos para nos alimenta. Mas, sendo animais evoluídos, nós também matamos por diversas outras razões.

Matamos por sermos manipulados ou coagidos, como tantos em ditaduras brutais afirmam ("mate ou morra"), matamos por um senso de dever patriótico ou em nome da tribo ("tribo" aqui representa muitas possibilidades, de grupos religiosos a gangues), matamos para roubar o dinheiro de alguém ou até por "amor". Matamos, também, por sermos influenciados a tal ponto por ideologias que aqueles com valores diferentes são inimigos que devem ser eliminados.

Será que o ódio é uma emoção puramente humana? Mesmo que existam exemplos de animais que ajam com algo que se parece com ódio, somos os campeões. E por que isso?

Criamos e realizamos obras belíssimas, somos capazes de atos de profunda caridade e altruísmo. Porém, prisioneiros de uma prisão dialética, somos também seres capazes de assassinatos horrendos, cometidos sem qualquer remorso.

Se existe algo em comum no impulso assassino é que, em muitos casos, os que matam sentem-se ameaçados: por poderes que fogem ao seu controle, por ideologias que exploram sua vulnerabilidade, por provocadores que abusam de sua dignidade, por serem forçados a matar para integrar a "tribo". Até mesmo os psicopatas podem ter seus surtos alimentados por causas como essas.

Se o medo é, em grande parte, responsável pelo impulso assassino, o primeiro passo a dar é a criação de meios para aliviá-lo. Não existe uma solução simples, dado que as causas são tão diversas. No mínimo, devemos criar condições sociais para que as pessoas possam viver com dignidade, com menos medo. Buda, Jesus e Gandhi tinham uma mensagem que, em um ponto crucial, era a mesma: respeitem-se uns aos outros, tenham compaixão.

A manipulação de muitos por alguns com o objetivo de criar grupos ancorados no ódio e no medo só nos fará afundar ainda mais na nossa já profunda vergonha coletiva.

Clima ajudou queda de Império Romano

São Paulo, 14 de janeiro de 2011


Estudo mostra que, a partir do século 3, esfriou e parou de chover no Império, e a agricultura entrou em colapso.

Publicação de livro sobre o tema, em 2005, aumentou o interesse na relação entre história e ambiente.


Muralha de Adriano (Inglaterra), feita no auge de Roma

RICARDO MIOTO

DE SÃO PAULO

 
Não é a resposta que quem corrige vestibulares espera, mas um novo estudo diz que, entre os fatores que levaram o Império Romano ao fim, está uma mudança climática.

Pesquisadores da Universidade Harvard e de várias instituições europeias mostraram que, no auge da expansão de Roma, o clima era quente e chuvoso. Isso fortalece a agricultura e, assim, ajuda a alimentar grandes exércitos, além de permitir uma economia pujante, evitando insatisfações internas.

Isso aconteceu por volta do ano 100 d.C., quando o Mediterrâneo virou um "lago romano", e o Império chegou a colocar os pés até no Norte da atual Inglaterra, onde concluiu, em 126 d.C., a muralha de Adriano, para manter os inimigos afastados.

Uma hora, porém, a prosperidade acabou. A partir do meio do século 3, mudanças climáticas tornaram o Império Romano mais seco e frio.

Segundo o grupo internacional de pesquisadores, que publicou suas conclusões na "Science", isso certamente afetou a produção de alimentos e pode ter estimulado causas tradicionalmente relacionadas à decadência de Roma, como a inflação.

Certamente políticas monetárias erradas colaboraram para piorar o cenário de crise econômica, dizem, mas não é por isso que se deve, nas palavras de Jan Esper, da Universidade Johannes Gutenberg (Alemanha), "seguir a crença comum de que civilizações estão isoladas de variações ambientais".

Para saber como era o clima há tanto tempo, os cientistas analisaram 9.000 pedaços grandes de madeira antiga. A maioria veio de restos de construções e artefatos de madeira na Europa.

Cada ano cria um anel único no tronco da árvore. Pacientemente, os cientistas foram retrocedendo, comparando pedaços de madeira cada vez mais antigos.

O desafio era ir criando uma sequência história de troncos: quando não havia mais como retroceder nos anéis de um, ter um novo pedaço de madeira, mais antigo, para seguir.

Conforme a grossura desses anéis, é possível saber quanto choveu e se fez frio ou calor naquele ano.

Os cientistas destacam que a existência de mudanças climáticas em um período pré-Revolução Industrial não significa que o aquecimento global contemporâneo seja natural. "O que está acontecendo agora não tem precedentes, é muito mais rápido", dizem os cientistas.

A ideia de que fatores ambientais, mais do que políticos, levam sociedades ao colapso ganhou força em 2005, quando o biogeógrafo americano Jared Diamond lançou o livro "Colapso". Nele, Diamond mostra como coisas como a exploração excessiva da madeira ou da pesca levaram sociedades à crise.

Não existia grande material científico, em 2005, sobre como o ambiente tinha atingido Roma. Os romanos, ao menos, não tiveram culpa pelas mudanças no clima que atingiram seu Império.

País estuda combustível de microalga

O Estado de S.Paulo - 16/01/2011


Alexandre Gonçalves

Cientistas brasileiros ingressaram na corrida para tornar economicamente viável a produção de combustível extraído de algas microscópicas. Na opinião dos pesquisadores, recursos escassos e equipes que atuam de forma solitária ainda constituem obstáculos para avanços na área.

O desafio é imenso. Só não supera as promessas. De todas as fontes de biocombustíveis, nenhuma oferece produtividade tão grande. Das plantas superiores - com raiz, tronco e folhas -, a melhor opção para produção de óleo - e, depois, biodiesel - é o dendê: cada hectare produz 4,4 mil litros por ano. Algumas microalgas produzem até 90 mil litros em idêntica área e no mesmo período: 20 vezes mais.

E as vantagens não terminam aí. Há microalgas que apreciam águas salobras ou águas com resíduos. O uso de tais microrganismos aliviaria a demanda por água doce e limpa, que costuma ser alta em culturas convencionais para produção de biocombustíveis, como soja e cana.

Além disso, regiões como o semiárido brasileiro poderiam encontrar sua vocação econômica com fazendas de microalgas. Não haveria desperdício de solo - pouco produtivo na região - e haveria luz de sobra para a fotossíntese das algas. O lençol freático de água salobra forneceria o meio de cultivo. Por fim, as microalgas são ótimos fixadores de carbono, contribuindo para atenuar o aquecimento global.

Contudo, os problemas começam cedo. Pouca gente aposta que a alternativa se tornará viável em menos de uma década. Há inúmeros desafios técnicos: otimização de fotobiorreatores - onde as algas são cultivadas -, desenvolvimento de processos baratos para separar microrganismos da água, identificação de espécies promissoras para cultivo... E com o barril do petróleo custando menos que R$ 150, é difícil tornar viáveis economicamente fontes alternativas de energia, o que retarda de forma significativa a pesquisa.

O biólogo Sergio de Oliveira Lourenço, da Universidade Federal Fluminense (UFF), é um dos cientistas brasileiros que há mais tempo estuda o tema. Ele acredita que será muito difícil competirmos de igual para igual com outros países, que aplicam montantes significativamente maiores em pesquisa. "Mesmo assim, é muito importante continuar investindo", afirma Lourenço. "Para, no futuro, contarmos com o conhecimento necessário para, no mínimo, assimilarmos a tecnologia e não nos tornarmos um mero fornecedor passivo de áreas boas para o cultivo."

Um edital do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) ofereceu R$ 4,5 milhões para ser gasto em dois anos por dez grupos.

A engenheira química Ofélia Araújo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), considera os investimentos no setor tímidos. Ela acredita que fundos setoriais de empresas químicas e de energia deveriam ser usados. "Elas são as maiores beneficiadas por avanços nessa área", pondera. Termelétricas, por exemplo, poderiam utilizar o gás carbônico produzido na queima do combustível para o cultivo de microalgas. Dessa forma, transformariam resíduo em produto.

João Carlos Monteiro de Carvalho, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP, já criou um protótipo para testar uma ideia semelhante. Ele coordenou uma pesquisa para reaproveitar o dióxido de carbono produzido pela fermentação alcoólica em usinas sucroalcooleiras. O gás é canalizado para ser consumido por organismos como microalgas e cianobactérias. O projeto, financiado pela Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), poderia fixar 20,8 milhões de toneladas de dióxido de carbono produzidas todos os anos pela fermentação da cana em São Paulo.

Bolha verde

Blog Mulher das Estrelas - 15/01/2011



A reunião da sociedade astronômica americana terminou e foi muito boa. Começo hoje a blogar sobre os meus assuntos favoritos. Estou no Canadá passando uns dias e aproveitando para trabalhar do hotel pois tenho muitos projetos pendentes pela frente.

Um dos resultados mais interessantes e que a imprensa divulgou bastante parece ficcção científica, mas não é não, é uma bolha verde, conhecida também como o Objeto da Hanny. A bolha foi descoberta pela professora holandesa Hanny van Arkel em 2007 quando ela estava participando do projeto Zoológico de Galáxias. Não precisa ser astrônomo para fazer parte do projeto, qualquer pessoa pode entrar e começar a classificar galáxias. Assim como a Hanny, quem encontrar algo bizarro deve procurar algum astrônomo para saber mais sobre o objeto. Depois de várias outras observações da bolha verde, inclusive estas imagens do Hubble, agora estamos convencidos de que a bolha é feita de gás que foi ejetado de uma galáxia durante uma colisão. O gás foi iluminado por um jato energético proveniente de um buraco negro massivo. Esta interpretação foi apresentada pelo meu ex-professor Bill Keel da universidade do Alabama aonde estudei. Ele estava todo saltitando durante a reunião e bati um longo papo com ele sobre o projeto Zoológico. Passo o link aqui para os leitores que estiverem interessados em classificar galáxias e desejo boa sorte, quem sabe vocês não encontram algo bizarro assim também e ficam famosos com a professora Hanny?

Clique aqui e veja a notícia completa da bolha verde direto do instituto do Hubble:

Aqui,  o link do Zoológico!