11 de jun. de 2010

Físicos explicam aerodinâmica da Jabulani, a bola da Copa

Redação do Site Inovação Tecnológica
10/06/2010

Aerodinâmica da Jabulani

Dois físicos da Universidade de Adelaide, na Austrália, especializados em aerodinâmica, fizeram uma palestra nesta quarta-feira, explicando porque a bola da Copa do Mundo da África Sul tem diferenças reais em relação às suas antecessoras.
Segundo Derek Leinweber e Adrian Kiratidis, que já estudaram a aerodinâmica de bolas de futebol, golfe, críquete e vários outros esportes, as manifestações dos jogadores sobre a Jabulani têm razões bem mais profundas do que simplesmente agradar este ou aquele patrocinador.

"A Jabulani tem uma textura com pequenos sulcos e 'aero ranhuras', e representa uma ruptura radical com a bolaTeamgeist ultra-suave, que foi utilizada na última Copa do Mundo."
Imagem: The University of Adelaide


 
Bola rápida e imprevisível

A nova bola é de fato mais rápida, faz curvas de forma imprevisível e é sentida como sendo mais dura no impacto. Os físicos afirmam que a maior dificuldade em lidar com a Jabulani deverá ser sentida pelos goleiros.
"Embora a Fifa tenha normas rígidas sobre o tamanho e o peso das bolas, eles não dispõem de regulamentação sobre a superfície externa das bolas.
"A Jabulani tem uma textura com pequenos sulcos e 'aero ranhuras', e representa uma ruptura radical com a bolaTeamgeist ultra-suave, que foi utilizada na última Copa do Mundo," disse o professor Leinweber.

Diferenças da Jabulani

"A Teamgeist foi uma grande tacada na última Copa do Mundo. Como ela era muito lisa - muito mais lisa do que uma bola de futebol comum - ela tinha uma tendência a seguir uma trajetória mais curva do que a bola convencional, e a cair mais repentinamente no fim da sua trajetória.
"Em comparação, os sulcos aerodinâmicos na Jabulani têm tendência a criar uma turbulência em volta da bola suficiente para sustentar seu voo por uma distância maior, e é uma bola mais rápida, mais dura no jogo.
"A expectativa é que a Jabulani faça mais curvas do que qualquer bola encontrada anteriormente. Os jogadores também estão descobrindo novas oportunidades para lançar a bola de maneira errática, para desespero dos melhores goleiros do mundo. Ao atingir o goleiro, a Jabulani terá desviado e mergulhado, chegando com mais força e energia do que a Teamgeist," conclui o físico.

Professores de Física brasileiros vão estudar no LHC

Agência Fapesp
09/06/2010

Aprender no LHC

Até 21 de junho estão abertas as inscrições para o processo seletivo de professores de física de ensino médio, das redes particular, municipal, estadual e federal, para participar da Escola de Física Cern 2010, que ocorrerá de 5 a 10 de setembro em Genebra, Suíça.
O Centro Europeu de Pesquisas Nucleares (Cern), um dos principais laboratórios de pesquisa em física no mundo, é o responsável pelo Large Hadron Collider (LHC), o maior acelerador de partículas já construído.
O Cern mantém um programa de educação destinado a professores de diversos países da Europa. Por meio de negociações de pesquisadores do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) com centros portugueses foi feito um acordo para incluir brasileiros no programa.

Professor de física do ensino médio

Poderão se inscrever somente professores de física do ensino médio ou que tenham habilitação para ministrar a disciplina e que estejam em atividades de docência e em sala de aula de turmas.
A seleção levará em conta eventual titulação de pós-graduação do candidato (especialização, mestrado ou doutorado) e a área de sua realização, além do envolvimento do candidato em projetos e atividades de pesquisa ou extensão ligados ao ensino.
Os custos estimados para a participação de cada professor são de R$ 5 mil. A expectativa dos organizadores é que sejam selecionados 20 professores.
Por conta disso, pede-se que o candidato solicite uma declaração da instituição à qual está vinculado, na qual a instituição se compromete a conceder as diárias internacionais necessárias ao desenvolvimento da atividade. Entretanto, esse critério não elimina o candidato.

Inscrições

A solicitação de inscrição será feita apenas por meio de e-mail redigido conforme modelo e enviado, juntamente com a documentação exigida, até a data-limite para o endereço eletrônico ensino@sbfisica.org.br, indicando o assunto "Escola de Física CERN 2010".
A documentação necessária deverá ser enviada por meio de arquivos anexados à solicitação de inscrição e deverá seguir rigorosamente os modelos de documentos disponíveis no site.

Mais informações podem ser obtidas no endereço www.sbfisica.org.br/ensino/escola-fisica-cern.

Telescópio robótico vai procurar cometas e exoplanetas

Redação do Site Inovação Tecnológica
09/06/2010

 Começou a funcionar no Chile um novo telescópio robótico que ficará varrendo os céus constantemente em busca de exoplanetas e cometas. O TRAPPIST (TRAnsiting Planets and PlanetesImals Small Telescope) pertence ao Observatório Europeu do Sul (ESO) e está instalado em La Silla, no Chile. A sigla complicada, e um tanto forçada, para dar ao telescópio o nome de TRAPPIST, pretende enfatizar a origem belga do projeto. As cervejas trapistas são famosas em todo o mundo e a maioria delas são belgas.



O TRAPPIST é um telescópio robótico muito leve, com apenas 60 centímetros, completamente automático e que faz seguimentos muito precisos no céu em alta velocidade. Instalado no Chile, ele é operado a partir da Bélgica, a cerca de 12.000 km de distância.[Imagem: E. Jehin/ESO].

Astrobiologia

O telescópio TRAPPIST vai se dedicar ao estudo de sistemas planetários de dois modos diferentes: detecção e caracterização de planetas situados fora do Sistema Solar (exoplanetas) e estudo de cometas que orbitam o Sol.
O telescópio de 60 cm é operado a partir de uma sala de controle em Liège, na Bélgica, ou seja, a cerca de 12.000 km de distância.
"Os dois ramos do projeto TRAPPIST são partes importantes de uma área de investigação interdisciplinar emergente - a astrobiologia - cujo objetivo é o estudo da origem e distribuição de vida no Universo," explica Michaël Gillon, responsável pelos estudos exoplanetários.
"Os planetas terrestres semelhantes à nossa Terra são alvos óbvios para a busca de vida fora do Sistema Solar, enquanto o estudo dos cometas se torna importante uma vez que se acredita que estes objetos desempenharam um papel importante no aparecimento e no desenvolvimento de vida no nosso planeta," diz colega Emmanuël Jehin, líder da parte cometária do projeto.

Exoplanetas

O TRAPPIST detectará e caracterizará exoplanetas por meio de medições de alta precisão de "diminuições de brilho", as quais podem ser causadas por "trânsitos" dos exoplanetas - a passagem do planeta em frente à sua estrela, do ponto de vista da Terra.
Durante um trânsito, a brilho estelar observado diminui ligeiramente, uma vez que o planeta bloqueia parte da radiação emitida pela estrela. Quanto maior for o planeta, mais radiação será bloqueada e consequentemente o brilho da estrela diminuirá de maior quantidade.
"O Observatório de La Silla, situado nos limites do Deserto de Atacama, é claramente um dos melhores locais de observação a nível mundial," diz Gillon. "E uma vez que alberga já dois instrumentos excelentes na detecção de exoplanetas, não poderíamos ter encontrado melhor sítio para instalar o nosso telescópio robótico."

Cometas austrais

O TRAPPIST será também utilizado para o estudo de cometas austrais. Para isso ele foi equipado com filtros cometários de alta qualidade, especialmente grandes, que permitem o estudo regular e detalhado da ejecção de vários tipos de moléculas por parte dos cometas na sua viagem em torno do Sol.
"Com dezenas de cometas observados todos os anos, poderemos obter um conjunto de dados único, que nos fornecerão informação importante sobre a natureza destes objetos," diz Jehin.

Telescópio robótico

O TRAPPIST é um telescópio robótico muito leve, com apenas 60 centímetros, completamente automático e que faz seguimentos muito precisos no céu em alta velocidade.
O programa de observação é preparado com antecedência e o telescópio pode então operar uma noite inteira sem intervenção humana. Uma estação meteorológica monitora constantemente o tempo e decide sobre a necessidade ou não de fechar a cúpula, em caso de mau tempo.
Colaboração astronômica
Os astrônomos que participam no projeto trabalharão em estreita colaboração com as equipes que utilizam o instrumento HARPS, montado no telescópio de 3,6 metros, e o instrumento CORALIE, montado no telescópio suíço Leonhard Euler, de 1,2 metros, ambos também instalados em La Silla.
O TRAPPIST é uma colaboração entre a Universidade de Liège e o Observatório de Genebra, na Suíça. O telescópio encontra-se instalado no edifício que abrigava anteriormente o telescópio suíço T70. Graças a esta colaboração, todo o projeto foi desenvolvido muito rapidamente: foram apenas dois anos entre a decisão de construção e a primeira luz captada pelo telescópio robótico. 

A volta dos misteriosos neutrinos

Folha de S. Paulo

São Paulo, domingo, 06 de junho de 2010
MARCELO GLEISER  - ciencia@uol.com.br
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Imagine que um sorvete de chocolate se transforme em um de baunilha: há partículas que fazem isso.
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NA SEMANA PASSADA, manchetes traziam novas dos fantasmagóricos neutrinos.
Desta vez, as notícias vinham do experimento chamado Opera, situado na montanha de Gran Sasso, na Itália. Cientistas anunciaram ter presenciado a mutação de um neutrino do tipo múon em outro do tipo tau.
Esta afirmação um tanto misteriosa pode abrir uma nova janela para o Universo.
Neutrinos têm uma história cercada de mistério. Sua existência foi prevista pelo físico Wolfgang Pauli em 1930 para solucionar um grave problema: experimentos com núcleos radioativos que emitiam elétrons pareciam ter energia faltando. E nada é mais sagrado em física do que a lei de conservação de energia.
O italiano Enrico Fermi sugeriu o nome de neutrino, "picollo neutrone", para a nova partícula que, segundo a teoria, não deveria ter carga elétrica ou massa. Devido à ausência de carga e massa, não é nada fácil detectar neutrinos. De fato, foram descobertos apenas em 1956, 26 anos após a previsão de Pauli.
Mas as coisas não eram assim tão simples. Entre a década de 1960 e 2000, mais uma vez neutrinos causavam confusão. A estória começa no coração do Sol, onde neutrinos são produzidos em profusão a cada vez que processos nucleares fundem núcleos de hidrogênio (i.e., prótons) em núcleos de hélio. Nossa estrela-mãe é uma gigantesca fábrica de neutrinos. A cada segundo, cada um de nós é bombardeado por trilhões deles. Há muitos modos de perceber nossa relação com o Sol...
O problema era que experimentos projetados para "contar" os neutrinos vindos do Sol achavam apenas um terço deles. Será que as teorias de como o Sol brilha estavam erradas? Ou eram os experimentos? Ray Davis, físico experimental, insistia que tudo estava certo. John Bahcal, teórico, também não via erros em sua teoria. Com o tempo, ficou claro que os experimentos estavam certos. O problema, outra vez, eram os neutrinos e seu comportamento bizarro.
Imagine que o sabor de seu sorvete possa mudar de morango para baunilha ou chocolate. Os neutrinos são assim. Eles vêm em três "sabores": o neutrino do elétron, o do múon e o do tau. Múons e taus são partículas similares ao elétron, mas mais pesadas. O interessante é que essa metamorfose só pode ocorrer se os neutrinos têm massa! Portanto, a razão pela qual Davis achou só um terço dos neutrinos é que, do Sol até aqui, os neutrinos do elétron se transformam nos outros dois. Sua descoberta lhe rendeu um Nobel.
Isso remete ao resultado do Opera. Ao observar a metamorfose de um neutrino do múon a um neutrino do tau, físicos confirmaram que eles têm massa. Isso significa que o Modelo Padrão das partículas, repositório de tudo o que sabemos do mundo subatômico, tem de ser modificado: mais uma vez, neutrinos revelaram uma nova física, além da que conhecemos no momento. Resta saber que nova física será esta.
Com frequência na história, novos instrumentos abrem novas janelas para o cosmo, iluminando um pouco da escuridão que nos cerca.
Tal como as pequenas flutuações de energia detectadas quando neutrinos mudam de tipo, cada nova descoberta nos permite ver um pouco além. A ciência é como uma luz nas trevas, como dizia Carl Sagan.
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MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor do livro "Criação Imperfeita".

Cientista ataca Big Bang e visão "estreita" dos físicos.

São Paulo, domingo, 30 de maio de 2010
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Para Mário Novello, muitos viraram apenas "técnicos muito competentes'.
Pesquisador critica a preocupação excessiva com carreira e prêmios;
para ele, dados poderão provar Universo eterno.
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DE SÃO PAULO

Para Mário Novello, físico do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, no Rio de Janeiro, a cosmologia virou, com frequência, "uma coisa trivial, simplesmente saber qual porcentagem de matéria dessa categoria ou daquela tem no Universo".
Tão preocupante quanto isso, diz, é o esnobismo dos cientistas com a filosofia e a metafísica, que os impede de refletir sobre o que fazem. São apenas "técnicos extremamente competentes".
Novello está lançando o livro "Do Big Bang ao Universo Eterno" (Zahar), que resume sua defesa da ideia de que o Big Bang não foi o começo de tudo. Segundo ele, essa interpretação está conquistando cada vez mais físicos. Confira a entrevista abaixo.
(RICARDO MIOTO)

Folha - A ideia de um universo eterno está conquistando os físicos?

Mário Novello - Ninguém tem dúvidas de que o Universo esteve muito condensado no passado. O problema foi a identificação daquele momento, em que começa a expansão, como o começo de tudo. Sou contra definir o Big Bang como o marco zero. Isso é contra a atitude científica. Mas o cenário está mudando. Entre os cientistas há uma tendência a aceitar que chegou o momento de ir além do Big Bang como o começo.

Mas, quando jovem, o sr. não era partidário do Big Bang como o começo de tudo?

Eu não era. Era uma questão de princípio. A ciência é a tentativa de explicar racionalmente tudo que existe. Eu sabia muito bem que a ideia de singularidade [a concentração de toda a massa do Universo em um único ponto que teria dado origem a tudo que se conhece] significava abdicar de fazer ciência ao longo de toda a história do Universo, significava dizer que a ciência tinha limite. Eu não podia aceitar isso.
Na minha época, havia uma visão global do que era atividade humana. Havia cadeira de filosofia, de sociologia, tínhamos contato com o mundo. Existe uma falta de fundamentos, hoje, do que é fazer ciência. Você pode ser um técnico extremamente competente, mas fora da área técnica pode ser um ignorante completo, sem saber o que está por trás do que você está fazendo na sua área.
Mas aparentemente a maioria dos físicos ainda discorda do sr. sobre o Big Bang...
Se você entrevista cem físicos, 98 dizem que o Big Bang é verdade e dois malucos dizem que não. É razoável que a mídia fique em dúvida. Primeiro você precisa ver quem são essas pessoas. Eu criei a cosmologia no Brasil, tive mais de 50 alunos de doutorado, você precisa ver que não sou um bobo. Mudanças são lentas. E você sabe que os cientistas são extremamente reacionários.

Ser minoria não incomoda?

Quando você faz ciência, você precisa dialogar com a natureza, e não com os seus colegas. Se o seu objetivo é ganhar uma bolsa, ganhar fama, ganhar prêmio, isso não é ciência. Pode ser no mundo em que a gente vive. Estou pouco me importando com a opinião dos outros. Mas isso não significa isolacionismo, porque publico em revistas científicas.

Mas o senhor já tem uma carreira estabelecida. Um doutorando não deveria se preocupar com os pares?

Não deveria. Se ele começa a se preocupar lá, vai se preocupar a vida toda. Hoje em dia a cosmologia virou uma coisa trivial, ridícula, simplesmente saber qual porcentagem de matéria dessa categoria ou daquela tem no Universo. Isso não tem interesse nenhum. Quando começa a entrar nesse estágio, é o momento de mudar.

É possível fazer com que os cientistas se preocupem menos com os pares?

Ainda não conseguimos controlar a vaidade. É um sistema todo de premiação, bolsa disso, prêmio Nobel, tudo valoriza o indivíduo. E dá impressão de que, se você não valoriza o indivíduo, ele não vai fazer nada. E o prazer em fazer as coisas? O Garrincha dava de dez a zero em qualquer um desses caras aí de hoje em dia. E morreu com dez mil réis no bolso.
Você vai dizer que o exemplo que eu estou dando é de um maluco, uma pessoa totalmente pirada, uma mentalidade que nunca saiu dos 12 anos de idade. Tudo bem, é um exemplo extremo. Mas mostra que algo se perdeu.

Mas a vaidade sempre existiu, não?

Sim, claro, sempre existiu. Nem estou dizendo que o sistema, antigamente, era diferente. O que estou querendo dizer é que a razão pela qual Newton fazia aquilo não tinha nada ver com a razão pela qual um bolsista faz as coisas hoje em dia.

No caso do Big Bang, há expectativa de que alguma observação possa dar mais respostas sobre a sua legitimidade como marco zero?

Sim. Já foi lançado o satélite Planck. Ele, nos próximos anos, poderá ajudar a dizer, observacionalmente, se houve uma fase anterior ao colapso. Existe uma possibilidade de que o Universo esteja se acelerando. Ela surgiu de uns dez anos para cá. Isso não bate com as previsões do Big Bang como singularidade, como começo de tudo. Se o Universo estiver se acelerando, então aquilo que sustentou durante mais de 25 ou 30 anos o Big Bang acabou.

Matéria, antimatéria e existência

MICRO/MACRO
MARCELO GLEISER - ciencia@uol.com.br
Folha de São Paulo
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A ciência abre janelas para a realidade, mas nenhuma
permite ver o que estaria além dessa realidade.
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NA SEMANA passada, manchetes traziam novas do Fermilab, o enorme acelerador de partículas situado nas vizinhanças de Chicago, nos EUA: "Nova pista para explicar nossa existência", escreveu Dennis Overbye, do "New York Times".
Interessante, esse título. Vários leitores escreveram reclamando da aparente necessidade de misturar ciência e religião até mesmo quando se trata de um experimento da física de partículas. Overbye cita Joe Lykken, um excelente físico teórico do Fermilab: "O anúncio não é equivalente a ver a face de Deus, mas os dedos do pé de Deus".
Lykken estava zombando de George Smoot, o prêmio Nobel que, ao revelar os resultados das investigações de sua equipe sobre as propriedades da radiação cósmica de fundo, produzida quando surgiram os primeiros átomos, afirmou que era como "ver a face de Deus".
Será que a existência de matéria e de antimatéria tem algo a ver com Deus? E, se não tiver, por que essa mania de invocar Deus quando se fala de cosmologia?
Smoot não é o único. O também vencedor do Nobel Leon Lederman escreveu um livro com Dick Teresi chamado "A Partícula de Deus".
Stephen Hawking, no seu "Uma História do Tempo", afirma que encontrar uma teoria final é como "conhecer a mente de Deus". Essas afirmações nos dizem não só algo sobre a expectativa do público, mas também sobre o papel cultural que físicos, especialmente aqueles trabalhando em questões ligadas a "origens", exercem. Sou tão culpado quanto eles, já que minha pesquisa trata de origens. Será que a física é a nova teologia?
De jeito algum. Confundir a prática da ciência com a religião é um erro grave. Por outro lado, a física moderna trata de assuntos que, por milênios, eram província exclusiva da religião. A cosmologia tenta construir uma narrativa que nos conta a história do cosmo. Esta história deve começar assim que o conceito de tempo passa a fazer sentido.
Portanto, a cosmologia não quer apenas explicar por que o Universo é do jeito que é, mas por que o Universo é. Se tivermos sucesso, entraremos numa nova era da história das ideias: ao ser capaz de explicar a Criação, a razão humana seria equacionada com... sim, a mente de Deus! Vemos que não é tão surpreendente assim encontrarmos essa metáfora nos textos científicos.
Ela revela ao menos parte das ambições do empreendimento cosmológico. Revela também, como argumentei em "Criação Imperfeita", a necessidade de exorcizarmos essa metáfora da ciência. Ela não só confunde as pessoas como está errada.
A questão do excesso de matéria em relação à antimatéria é essencial. Caso as duas existissem em pé de igualdade, não estaríamos aqui: quando matéria e antimatéria colidem, desfazem-se em radiação.
Portanto, o resultado do Fermilab, que reforça resultados antigos, mostra que a versão atual da física das partículas é incompleta. Por outro lado, a descoberta não tem nada a ver com os dedões de Deus ou outra parte da anatomia divina.
Ela é um triunfo da inventividade humana, irrelevante para a teologia. A ciência certamente abre muitas janelas para a realidade. Mas nenhuma delas nos permite vislumbrar o que ocorre além da realidade.

MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor do livro "Criação Imperfeita".