18 de jun. de 2010

Cientistas encontram mais seis planetas fora do Sistema Solar

RICARDO MIOTO
Folha de São Paulo - 15 de junho de 2010

________________________________________________

Astros são todos gigantes; equipe tem participação brasileira.
________________________________________________

 
A equipe do sonda Corot, que tem participação do Brasil, anunciou ontem a descoberta de mais seis planetas fora do Sistema Solar. Todos bem maiores do que a Terra e, portanto, maus candidatos a abrigarem vida.

A procura por planetas distantes começou em 1995. Já foram encontrados 461 (15 pela Corot). Outras missões, como a Kepler, da Nasa, também fazem buscas.

Para Sylvio Ferraz Mello, astrônomo da USP, isso não significa que os novos resultados estejam só acrescentando mais nomes à lista.

"É incrível, mas não há dois iguais. Encontramos densidades e tamanhos completamente estranhos."

Em um dos descobertos agora, por exemplo, a temperatura sobe de 250C para 600C em apenas 13 dias. Isso é quanto dura um ano no lugar: o planeta está muito perto da estrela que orbita.

O grande objetivo, porém, é achar mais planetas parecidos com a Terra. Eles precisam ser menores e ter crosta rochosa. Em 2009, a Corot achou um, o Corot 7b.

Mas é difícil encontrá-los. A Corot consegue fazer isso observando a diminuição da luminosidade que eles causam nas estrelas que orbitam ao passar na frente delas.

Quando menor e mais leve, então, mais difícil a detecção. O Corot 7b levou 70 noites de observação no Chile para que os cientistas soubessem sua massa, diz Eduardo Janot, da USP.

É difícil também ver planetas que não estão muito próximos da estrela. O Corot 7 tinha um ano de 20 horas -estava "grudado" na estrela.

Newton, Einstein e Deus


MARCELO GLEISER
Folha de São Paulo - 13 de junho de 2010
________________________________________

Os dois gigantes da física tinham uma relação íntima com certa versão do que se costuma chamar de Deus.

________________________________________


TALVEZ ISSO SURPREENDA muita gente, mas tanto Newton quanto Einstein, sem dúvida dois dos grandes gigantes da física, tinham uma relação bastante íntima com Deus.
É bem verdade que o que ambos chamavam de "Deus" não era compatível com a versão mais popular do Deus judaico-cristão.
Numa época em que existe tanta disputa sobre a compatibilidade da ciência com a religião, talvez seja uma boa ideia revisitar o pensamento desses dois grandes sábios.
No epílogo da edição de 1713 de sua obra prima "Princípios Matemáticos da Filosofia Natural" (1686), Newton escreve que o seu Deus (cristão, claro) era o senhor do Cosmo e que deveria ser adorado por estar em toda a parte, por ser o "Governante Universal". Essa visão de Deus pode ser considerada panteísta, se entendermos por panteísmo a doutrina que identifica Deus com o Universo ou que identifica o Universo como sendo uma manifestação de Deus.
A visão que Einstein tinha de Deus, devidamente destituída da conotação cristã, ecoava de certa forma a de Newton. Einstein desprezava tudo o que dizia respeito à religião organizada, em particular a sua rígida hierarquia e ortodoxia.
Para ele, um Deus que se preocupava com o destino individual dos homens não fazia sentido. Sua visão era bem mais abstrata, baseada nos ensinamentos do filósofo Baruch Spinoza, que viveu no século 17.
Numa carta dirigida a Eduard Büsching, de 25 de outubro de 1929, Einstein diz: "Nós, que seguimos Spinoza, vemos a manifestação de Deus na maravilhosa ordem de tudo o que existe e na sua alma, que se revela nos homens e animais".
Em 1947, numa outra carta, Einstein escreveu: "Minha visão se aproxima da de Spinoza: admiração pela beleza do mundo e pela simplicidade lógica de sua ordem e harmonia, que podemos compreender".

Como essas posições podem ser usadas no debate sobre a compatibilidade da ciência com a religião?

De um lado, ateus radicais como Richard Dawkins, Christopher Hitchens e Sam Harris argumentam que não pode haver uma compatibilidade, que a religião é uma ilusão que precisa ser erradicada, que o sobrenatural é uma falácia.
De outro, existem vários cientistas que são pessoas religiosas e até mesmo ortodoxas, e que não veem qualquer problema em compatibilizar seu trabalho com a sua fé. O fato de existirem posições tão antagônicas reflete, antes de mais nada, a riqueza do pensamento humano. Nisso, vejo um ponto de partida para uma possível conciliação.
É verdade que o ateísmo radical está respondendo a grupos fundamentalistas que tentam evangelizar instituições públicas. "Guerra é guerra e devemos usar as mesmas armas", ouvi de amigos. Mas o pior que um fundamentalista pode fazer é transformar você nele.
Einstein e Newton encontraram Deus na Natureza e viam a ciência como uma ponte entre a mente humana e a mente divina.
Para eles, adorar a Natureza, estudá-la cientificamente, era uma atitude religiosa. Acho difícil ir contra essa posição, seja você ateu ou religioso. Religiões nascem, morrem e se transformam com o passar do tempo. Mas, enquanto existirmos como espécie, nossa íntima relação com o Cosmo permanecerá.

________________________________________

MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor do livro "Criação Imperfeita"

Tempos emocionantes para a ciência brasileira

Ministério da Ciência e Tecnologia
NATURE MATERIALS/ VOL 69/ JUL 2010

Sergio Machado Rezende atuou por 5 anos como ministro da Ciência e Tecnologia do Brasil. Nature Materials perguntou-lhe sobre o passado e o futuro da ciência em seu país.
Por Fabio Pulizzi
 

Como você ficou interessado em física?

Quando eu fiz meu primeiro curso de física na escola, fiquei imediatamente fascinado pela formulação rigorosa da mecânica clássica e a sua capacidade de descrever os fenômenos comuns através de equações simples. Solucionar problemas de física foi muito agradável para mim. No entanto, em 1950, a ciência fundamental realmente não oferecia oportunidades de carreira no Brasil, então eu decidi estudar engenharia, em vez disso. Depois de me formar em engenharia eletrônica no Rio de Janeiro, fui para o MIT, nos EUA, para fazer doutorado. Foi durante este período que os meus interesses se deslocaram de volta para o mais fundamental, ao invés dos aspectos baseados na aplicação dos materiais utilizados na eletrônica, e gradualmente me tornei um físico de materiais.


O que fez você decidir se tornar ativo na política, assim como na ciência?

Não foi realmente uma decisão deliberada, mas consequência do meu envolvimento com a administração e tomada de decisões durante a minha carreira científica. Após meu doutorado, voltei para o Rio, onde fui nomeado professor associado de física na Universidade Católica. No início dos anos 1970, mudei-me para Recife, capital do estado de Pernambuco, no nordeste do Brasil. Na verdade, eu fui enviado para lá em uma missão do Conselho Nacional de Pesquisa para estabelecer um departamento de física na Universidade Federal de Pernambuco. Como eu era o primeiro membro da faculdade de física com um grau de doutorado, era natural que eu me tornasse chefe do departamento. Eu era jovem e aprendi a realizar atividades administrativas paralelas à pesquisa. Na década de 1980, tornei-me reitor do Centro de Ciências Exatas e, no início de 1990, fui convidado a tornar-se diretor científico da recém-criada Fundação de Ciência de Pernambuco, a primeira agência estatal a apoiar a ciência e a tecnologia na região Nordeste. Eu consegui trabalhar nessas posições, enquanto permanecia ativo no ensino e na pesquisa. Em 1995, fui convidado para ser secretário de Estado de Ciência e Tecnologia por Miguel Arraes, o governador eleito, mesmo que eu não tinha envolvimento anterior com política, e em quatro anos ganhei uma experiência considerável na formulação de políticas e em executar programas de ciência e tecnologia.


Na sua opinião, como a ciência no Brasil tem evoluído nas últimas décadas?

Durante a segunda metade do século passado, o Brasil construiu um complexo sistema de ciência e tecnologia que hoje ocupa a décima-terceira no mundo em termos de publicações científicas, de acordo com o banco de dados da Thomson Reuters, à frente de países como a Holanda e a Rússia. Há mais de 100 mil pesquisadores ativos no Brasil de hoje, e nós temos um número considerável de cientistas e engenheiros fazendo pesquisa científica e tecnológica de nível internacional. Entre os exemplos mais conhecidos de sucesso da pesquisa brasileira estão os programas de biocombustíveis, perfuração e produção de petróleo em águas profundas pela Petrobras e o do agronegócio, em que altos níveis de produtividade foram possíveis pelo trabalho realizado pela Embrapa, a organização federal para a pesquisa em pecuária e agricultura.


E sobre o tempo em que tem sido Ministro da Ciência?

Precisamos ter em mente que construir um sistema tão complexo e mantê-lo funcionando exigiu um esforço enorme. A comunidade científica não tinha experiência e não havia cultura de inovação, não havia políticas de ciência e tecnologia constantes, ou investimentos substanciais e, por último mas não menos importante, não havia quase nenhuma conexão entre a pesquisa e a indústria. Houve momentos muito difíceis em que a falta de recursos era tanta, que levava à retenção dos pagamentos de bolsas para estudantes brasileiros no exterior. Felizmente, devido à firme prioridade dada pelo governo do presidente Lula à ciência, tecnologia e inovação na última década, a situação melhorou dramaticamente.


De que maneira? Os investimentos têm aumentado?

Sim. Em 2000, as despesas para a ciência e tecnologia foram da ordem de R$ 15,2 bilhões, o que equivale a 1,3% do produto interno bruto do Brasil (PIB). Em 2008, o investimento ultrapassou R $ 43 bilhões, atingindo 1,43% do PIB. Estes valores incluem o setor público federal, o financiamento dos estados individuais e de empresas públicas e privadas. A participação total do setor público é de 55% versus 45% das empresas. Uma parte importante deste financiamento é do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), que hoje é uma parte importante do orçamento do Ministério da Ciência e Tecnologia. Ele foi criado em 1970, mas durante muito tempo sofreu com a escassez crônica de verbas. No entanto, em 1999, o governo anterior criou os chamados fundos setoriais, que são baseados na tributação de setores específicos da atividade econômica. Estes setores incluem a exploração dos recursos naturais, petróleo e produtos industriais específicos, e incluem taxas sobre as licenças para a aquisição de tecnologia estrangeira. Tais fundos setoriais agora são uma parte integrante do FNDCT, e tornaram possível o seu crescimento consistente. Para se ter uma idéia, o FNDCT desembolsou R$ 350 milhões, em 2002, e em 2010 o montante chegará a R$ 3,1 bilhões.


Que áreas de pesquisa vão se desenvolver mais como resultado desses investimentos?

Até agora, cientistas brasileiros contribuíram principalmente para alargar as fronteiras do conhecimento fundamental, e acredito que este processo vai se intensificar ainda mais. Os pesquisadores estão se tornando mais experientes, os jovens estão expostos a ciência de alta qualidade e as infra-estruturas para pesquisa está melhorarndo. E, em ciência aplicada e engenharia, haverá um esforço em todas as áreas que representam uma prioridade no plano internacional. Para listar alguns: a biotecnologia e a nanotecnologia; tecnologias da informação e de comunicações; saúde; energia; agronegócio; biodiversidade e recursos naturais; regiões da Amazônia e do semi-árido; meteorologia e mudanças climáticas; espaço e pesquisa nuclear.


Foram criados institutos de pesquisa de excelência nessas áreas?

Em parte. Três anos atrás, o governo lançou um programa para os Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia com US$ 330 milhões, para dotar os centros de excelência estabelecidos com os meios de reforçar os seus recursos. Mas temos também criou novas instituições. Um deles é o Centro Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol, em Campinas, São Paulo, com o objetivo de melhorar a tecnologia para produzir etanol a partir da celulose. Também criou um novo centro de microeletrônica, o Centro Nacional de Tecnologia Eletrônica Avançada, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, e o Centro de Estudos da Terra do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais no Estado de São Paulo, para estudos de mudanças climáticas globais. Nós ampliamos alguns centros que estão sob a responsabilidade direta do Ministério da Ciência e Tecnologia, por exemplo, o Instituto Nacional de Estudos da Amazônia. Mas, além da criação de novos institutos e da expansão dos já existentes, o esforço real foi o de melhorar a infra-estrutura geral para a pesquisa, aumentar o número de investigadores e proporcionar-lhes condições adequadas para produzir bons resultados. Parte disso consistiu em elevar os salários dos cientistas que trabalham nas universidades e nos centros de pesquisa do Ministério da Ciência e Tecnologia.


Pesquisadores brasileiros costumavam ir para o estrangeiro para ganhar experiência. Isso está mudando agora?

Já mudou. É importante esclarecer que somente na década de 1950, com a criação de agências federais de apoio à ciência, o Conselho Nacional de Pesquisa e da Comissão de Aperfeiçoamento de Pessoal de Faculdade, o Brasil começar a lançar os alicerces de uma comunidade científica. Isto foi feito principalmente por concessão de bolsas para pós-graduação no exterior, principalmente nos EUA e na Europa. O primeiro mestrado foi criado no Rio de Janeiro somente em 1963, e demorou vários anos para serem criados mestrados e doutorados em todo o país. É natural, portanto, que as primeiras gerações de cientistas brasileiros tenham estudado no exterior. Atualmente, as universidades e instituições de pesquisa estão bem equipadas, existem programas de pós-graduação excelentes em muitas universidades, e as agências financiadoras oferecem menos bolsas para estudos de pós-graduação no exterior. Por outro lado, a experiência de pesquisa em outros países ainda é considerada muito importante e graduados podem facilmente obter o apoio a programas de pós-doutorado no exterior. O governo também estimula a participação de jovens cientistas em trabalhos de "big science", que exige grandes investimentos e estrutura para participar em colaborações internacionais. Por exemplo, nós apoiamos a participação em programas de investigação dos grandes laboratórios americanos e europeus, tais como Fermilab e Cern para o estudo da física das partículas elementares, e grandes observatórios astronômicos, como o Observatório Austral para a Pesquisa Astronômica e o Gemini, no Chile.


Existe um esforço para aumentar o número de alunos de graduação em ciências?

Totalmente. O governo lançou alguns programas para estimular o interesse da ciência nas escolas. Um exemplo clássico foi a criação, em 2005, dos Jogos Olímpicos de Matemática somente para escolas estaduais. Antes, apenas cerca de 200 mil alunos por ano participariam de tais eventos, e eram majoritariamente de escolas particulares. Alunos de escolas estaduais não se sentiam confiantes o suficiente, então o governo decidiu criar uma competição apenas para escolas estaduais. Dez milhões de alunos participaram, no primeiro ano, número que subiu para 19 milhões, em 2009. Programas desse tipo estimulam o interesse pela matemática, e os melhores alunos podem obter bolsas de estudo e continuar a estudar o assunto em um nível superior. É claro que o interesse crescente na matemática contribui para estimular o interesse em ciência e engenharia também.


Você mencionou a mudança climática: como a ciência brasileira vai contribuir nesta área?

Devemos ter em mente que a mudança climática não é apenas uma teoria científica, mas também uma questão política, com consequências, econômicas, sociais e ambientais globais. O Brasil tem feito a sua posição sobre este assunto conhecida internacionalmente, assim como os seus bem-sucedidos esforços em reduzir emissões e reforçar a sua capacidade de pesquisa científica neste campo. Na recente conferência sobre mudança climática, em Copenhague, o Brasil anunciou o compromisso voluntário de reduzir as emissões de gases com efeito de estufa em 37% em 2020, em relação aos valores normalmente aferidos. Tudo isso tendo em mente que o Brasil é uma sociedade relativamente de baixo nível de carbono. A indústria brasileira teve um recorde de baixas emissões de gases com efeito de estufa, e ainda há espaço para manter ou mesmo reforçar esta tendência, aumentando o uso de fontes renováveis. De acordo com dados do Balanço Energético Nacional de 2008, essa participação é de 45%, o que significa uma matriz energética limpa em comparação com a média mundial, que é de 13%. Um papel importante nesta contribuição é o dos biocombustíveis nos transportes. Com a invenção dos carros flex, feita por laboratórios no Brasil, o uso do etanol da cana de açúcar vem aumentando constantemente e se equiparou ao da gasolina. Uma das maiores contribuições para as emissões de gases com efeito de estufa, no passado, tem sido o desmatamento, mas esforços impressionantes foram feitos também na redução dessas emissões – que caíram cerca de 45%, em 2009, comparado com 2008. Estou convencido de que o Brasil está no caminho certo e contribuirá decisivamente para o esforço global para mitigar a mudança climática. Em relação ao trabalho científico nesta área, temos estabelecido uma ampla rede de laboratórios e grupos de pesquisa envolvidos em todos os aspectos da ciência da mudança climática, como a modelagem climática, as emissões do uso da terra e práticas de agricultura, biodiversidade e recursos naturais, entre outros. Esta rede é liderada por alguns dos cientistas mais experientes do Brasil, que participaram dos painéis internacionais, como o Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima, e tem a colaboração internacional forte.


O senhor é obviamente uma pessoa muito ocupada. Ainda é um pesquisador ativo também?

Estou no sentido de que continuo pensando em física, sigo a literatura, tento dar sugestões a colegas e alunos, e faço alguns cálculos, eventualmente publicando alguns papers. Mas, para ser considerado um pesquisador ativo na minha idade e com minha experiência, eu deveria estar envolvido em muitos outros temas de pesquisa. Eu provavelmente dedico 10% da minha energia e tempo para pesquisar, e isso inclui finais de semana, quando estou mais produtivo. Não é muito, mas permite-me manter em contacto com os desenvolvimentos na área que eu estou mais envolvido, que é a de fenômenos magnéticos em materiais nanoestruturados.


O senhor vai continuar ativo na política, talvez ainda como ministro, no futuro?

Eu definitivamente não vou ficar ministro, independentemente de quem seja eleito presidente para o próximo ano. Até 31 de Dezembro de 2010, eu terei estado envolvido de maneira intensa com política científica por oito anos, 2,5 anos como presidente da Financiadora de Estudos e Projetos e depois como ministro. Acho que isso é suficiente e me sinto recompensado pelos resultados alcançados. Também já comecei a me sentir desconfortável por passar a maior parte do meu tempo longe de casa e da família. Por fim, acredito que uma renovação de conceitos, idéias e práticas será sobretudo benéfica para nosso sistema científico e tecnológico, para mantê-lo saudável e fazer mais progressos.

11 de jun. de 2010

Mais perto das estrelas

Adesão brasileira a projetos de telescópios multinacionais divide opiniões - mas é fundamental para a ciência nacional.
André Julião
05/06/2010

Os brasileiros poderão olhar para o céu com uma visão mais acurada em poucos anos. O País se prepara para ingressar em dois audaciosos projetos em parceria com a Europa. Ambos estão inclusos no Plano Nacional de Astronomia (PNA), cuja versão preliminar foi discutida na 4ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, entre os dias 26 e 28 de maio, em Brasília. O projeto que está em fase mais avançada é o PAU (sigla em inglês para Física do Universo Acelerado), um empreendimento científico em associação com a Espanha.
O consórcio vai construir um telescópio de 2,5 metros de diâmetro no país europeu com custo estimado entre 14 e 18 milhões de euros. A parte que cabe ao Brasil, no entanto, deve sair por três milhões de euros. É o suficiente para construir a câmera de altíssima resolução que fará parte do observatório. O objetivo principal do projeto é observar a energia escura, que comporia 75% do universo atual. A natureza dessa parte do cosmos ainda é um mistério para os astrônomos.
Além da energia escura, conseguiremos observar asteroides e acompanhar a evolução da galáxia e das estrelas, afirma Renato Dupke, astrofísico do Observatório Nacional e coordenador da parte brasileira do projeto. As observações devem começar em 2012 e vão durar quatro anos, com resultados preliminares previstos para 2014. Os países participantes terão direito à exclusividade dos dados coletados durante um ano. Depois, ambos poderão usar o telescópio em estudos de interesse mútuo. Já existem planos de se criar um projeto semelhante, mas com tecnologias mais avançadas, diz Dupke.
Outra iniciativa visa à adesão do Brasil ao ESO (sigla em inglês para Observatório Europeu do Sul), organização de 14 países que opera vários telescópios na Cordilheira dos Andes, no Chile. O ministro de Ciência e Tecnologia, Sérgio Rezende, já enviou uma carta ao diretor-geral do observatório, Tim Dzeeuw, expressando a disposição do País. Dessa forma, teríamos acesso ao E-ELT (em português Telescópio Europeu Extremamente Grande), cuja operação deve ter início em 2018. As vantagens da adesão, no entanto, não são unanimidade. Seria uma irresponsabilidade, diz João Steiner, professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP e coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Astrofísica. Segundo ele, os astrônomos brasileiros vão competir em desigualdade com os europeus. Eles determinarão o tempo que cada pesquisador terá para seus estudos, diz.
Segundo Steiner, a participação de cada país varia de acordo com seu PIB (Produto Interno Bruto) e o investimento seria de R$ 1,24 bilhão em 20 anos. O Brasil só adere ao ESO se as condições forem aceitáveis uma exceção terá de ser aberta, afirma Albert Bruch, diretor do Laboratório Nacional de Astrofísica. Outros astrônomos defendem a entrada no programa europeu. Se quisermos que a astronomia brasileira cresça, tornando o Brasil ator global na área, é preciso que haja acesso dos astrônomos brasileiros a essa infraestrutura, disse Beatriz Barbuy, professora do IAG, em artigo na Revista da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo).
O Brasil já participa de pesquisas multinacionais com dois outros telescópios, Soar e Gemini, ambos no Chile. Eles dão conta da nossa demanda. Ainda estamos nos qualificando para aumentá-la, defende Steiner. Segundo ele, a comunidade de astrônomos brasileiros é relativamente pequena. São 235 profissionais que recebem salário de instituições, mais 60 alunos de pós-doutorado e 220 de mestrado e doutorado. Fica a questão: as próximas gerações encontrarão uma infraestrutura melhor para explorar o cosmos?

Para onde vai a astronomia brasileira

Revista Pesquisa Fapesp
NOTÍCIAS
Edição Online - 27/05/2010

Artigos de astrofísicos discutem pontos favoráveis e contrários à entrada do Brasil como sócio pleno do ESO, o consórcio europeu de telescópios situados no Chile.
© ESO
ESO: consórcio europeu administra
telescópios de ponta no Chile.

Um debate sobre os rumos que a astronomia brasileira deve seguir está em curso. De um lado, há pesquisadores a favor da ideia de que, para estimular ainda mais o crescimento desse ramo da ciência nacional nos próximos anos, o Brasil deve se tornar sócio pleno do ESO (European Southern Observatory), o consórcio europeu de telescópios situados no Chile. A entrada no ESO é cara, mas, dizem os defensores dessa visão, seria a forma de garantir aos astrofíscios brasileiros acesso a instrumentos de observação de última geração, como o gigantesco E-ELT (European Extremely Large Telescope), que em 2018, quando deverá estar pronto, será o maior telescópio terrestre. Do outro lado, há cientistas que avaliam não ser essa a melhor opção para assegurar o futuro da astronomia brasileira. Dizem que o custo de virar membro do ESO é excessivamente elevado e pode levar à descontinuação de projetos hoje em curso. Também argumentam que os ganhos científicos e tecnológicos de entrar no ESO são incertos e que essa a questão está sendo discutida sem uma análise técnica.
Para estimular a troca de ideias, o site de Pesquisa FAPESP publica dois artigos assinados por astrofísicos da Universidade de São Paulo (USP) com pontos de vista distintos sobre a questão. Beatriz Barbuy defende a entrada do Brasil no ESO e Augusto Damineli diz que essa não é forçosamente a melhor alternativa. Nenhum dos artigos reflete necessariamente a opinião da FAPESP, mas sim a de seus autores.

Por que o Brasil deve se tornar sócio do ESO?

Revista Pesquisa Fapesp
NOTÍCIAS
Edição Online - 27/05/2010

Para a astronomia brasileira crescer e se tornar um ator global, é preciso que haja acesso dos astrônomos nacionais a essa infraestrutura.
Beatriz Barbuy*

© ESO
Desenho do E-ELT: maior telescópio do ESO ( e do mundo)
está previsto para estar pronto em 2018

A astronomia se distingue atualmente por atingir grandes avanços tecnológicos que permitem aos astrônomos uma obtenção de dados em um nível que antes era impossível atingir, tanto em comprimentos de onda antes inexplorados quanto em profundidade, chegando a objetos muito fracos na fronteira do Universo. O ingresso do Brasil no European Southern Observatory (ESO) nos inseriria em dois grandes projetos: o telescópio gigante E-ELT (European Extremely Large Telescope), com espelho de 42 metros, e o radiotelescópio Alma (Atacama Large Millimeter Array), assim como no mais completo e maior observatório da atualidade, que é o ESO, todos instalados ou em via de instalação, no Chile.

LEIA TAMBÉM

Outra opinião

■ Para conhecer um ponto de vista diferente sobre a entrada do Brasil no ESO, acesso artigo de Augusto Damineli:

O ESO é uma organização intergovernamental, incluindo 14 países, e sua infraestrutura atual tem três observatórios no Chile: La Silla, com telescópios de 2,2 metros, 3,5 metros, 3,6 metros, além de uma dezena de outros pequenos; Paranal, com 4 telescópios de 8,2 metros (Very Large Telescope – VLT), com capacidade de operar interferometria óptica, o Vista (Visible and Infrared Survey Telescope for Astronomy) de 4,1 metros e outros com 1,8 metros a 2,5 metros; eChajnantor, com os radiotelescópios Apex (Atacama Pathfinder Experiment), e o grande projeto Alma, que estará completado em 2014. O telescópio gigante E-ELT será instalado a 20 quilômetros do VLT.
O ESO tem grande diversidade de telescópios e principalmente de instrumentos de alto desempenho e cobriria as necessidades da grande maioria dos astrônomos observadores brasileiros. A instrumentação disponível é a mais avançada da atualidade. De fato, o modo de desenvolvimento da instrumentação do ESO, que se faz em consórcios de diferentes laboratórios/universidades, e sob coordenação do ESO, vem produzindo instrumentos únicos. Note-se que um telescópio não é tudo, precisa-se de instrumentos; que tempo de telescópio não é tudo, pois se o instrumento é eficiente, pode atingir objetos mais fracos e em menos tempo, e/ou grande número de objetos simultaneamente, e/ou grande faixa espectral, o que pode ampliar o campo de observação e reduzir o tempo de observação necessário. Isso representa uma otimização muito significativa de tecnologia e pesquisa. Como exemplo, o ESO é o único observatório que está produzindo instrumentos de segunda geração dos telescópios de 8 metros, que se distinguem claramente daqueles de primeira geração. O primeiro deles, denominado X-shooter, tem cobertura espectral de 300 nanômetros até 2,5 mícrons (ou seja, do ultravioleta próximo ao infravermelho) e com grande eficiência.
Outro aspecto importante dessa organização é sua grande agilidade para resolver problemas técnicos, de maneira que não se perca tempo de observação. Ainda mais um fator importante, é dispor de pacotes de software de redução automática dos dados que saem dos telescópios, o que permite que o astrônomo possa fazer ciência com uso dos dados rapidamente.
Por essas razões, uma maioria significativa dos astrônomos brasileiros (3/4) apoia a ideia de entrada do Brasil como sócio do ESO.
A principal razão para entrarmos como sócios do ESO é que, atualmente, a infraestrutura disponível para a astronomia brasileira é insuficiente para a diversidade de campos de pesquisa que estão se desenvolvendo entre nós, o que faz com que uma grande parcela da comunidade venha tendo dificuldades em obter observações adequadas para seus trabalhos. Os telescópios Soar (Southern Observatory for Astrophysical Research, também no Chile) e Gemini (com dois telescópios, um no Chile e outro no Havaí) têm utilidade para uma fração da comunidade, mas não são suficientes para uma grande parte dela. Além do mais, a ideia é de que sejam mantidos o Soar e a participação no Gemini. O telescópio Soar já foi pago, e as operações estão garantidas por 20 anos desde sua inauguração em 2004. Conterá três instrumentos brasileiros, portanto servirá a uma comunidade particularmente interessada no seu uso. E quanto ao consórcio Gemini, o telescópio do Havaí, por exemplo, dá acesso ao hemisfério Norte.

Nossa entrada no ESO traria consigo intensa formação de recursos humanos e envolvimento da indústria brasileira. O ESO tem programas de inclusão e estímulo, para que os países associados garantam sua fração de tempo de observação e obtenham sua cota financeira para construção de instrumentos, pois de outra forma seria inaceitável pelos países que integram o consórcio. Como estratégia de adaptação para poder competir com projetos de alta qualidade, entraríamos, inicialmente, com uma fração baixa de tempo, e assim ficaríamos por 10 anos, durante os quais a comunidade passaria por um fundamental processo de adaptação, para um crescimento da qualidade da nossa ciência, antes de passarmos a membro pleno.
O custo, de fato, é alto, com a caução de entrada no valor de € 132 milhões. A anuidade, ao passar a membro pleno, seria de € 13,6 milhões. Embora pareça muito, essas verbas voltam ao país através de contratos para construção de instrumentos, bolsas para jovens e todas as viagens ao Chile/Europa dentro das atividades do ESO, isto, é claro, sem falar da coleta de dados pelos astrônomos, do valor científico, que é o principal. Se ingressarmos, deveremos estabelecer formação de pessoal para uso do radiotelescópio Alma, com doutoramentos sanduíche no ESO, conseguindo assim recuperar atividades de impacto nessa área. A verba da caução seria usada para a construção civil do sítio do telescópio gigante E-ELT por construtora brasileira e confecção de partes deste telescópio pela indústria aeroespacial brasileira (já há itens identificados).

Gostaria aqui de comentar que há um custo não palpável na opção de não entrarmos nesse observatório, que é o solapamento de uma competência nacional criada com a formação de pessoal competente capacitado, ao longo dos últimos 40 anos (os primeiros doutores se formaram no exterior no final dos anos 60). É uma comunidade sólida, com um bom número de astrônomos de destaque internacional, e que vem crescendo. Levantamento feito mostra que há 600 astrônomos no Brasil, incluindo pós-graduandos. As especialidades cobrem um bom número de áreas, desde sistema solar, planetas extrassolares até cosmologia observacional. Em 2009, foram produzidos 286 artigos na área de ciências espaciais, segundo lista do Institute for Scientific Information (ISI), em que há autoria/coautoria de astrônomos brasileiros.
Há uma grande demanda reprimida, e grupos em um grande número de áreas estão sendo frustrados e impossibilitados de formar novas gerações por falta de condições técnicas compatíveis com o nível científico já atingido. Portanto, se quisermos que a astronomia brasileira cresça, tornando o Brasil ator global na área, é preciso que haja acesso dos astrônomos brasileiros a essa infraestrutura.

________________________________________

*Beatriz Barbuy é professora titular do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP).