4 de nov de 2009

O Globo - 01/08/2009

Carlos Albuquerque

ANO INTERNACIONAL DA ASTRONOMIA

Uma pequena guinada para o homem, um grande salto para a Humanidade.

Há 400 anos, ao direcionar seu telescópio para os céus — até então, esses instrumentos eram usados essencialmente para a navegação — o astrônomo italiano e professor de matemática na Universidade de Pádua, Galileu Galilei (1564-1642), iniciava uma série de observações que, entre outras coisas, comprovariam a tese de que a Terra gira em torno do Sol. Com isso, ele não apenas mudaria a nossa concepção do Universo, entrando em perigosa rota de colisão com os dogmas da Igreja Católica, como alteraria profundamente o pensamento humano. No percurso, esse mensageiro das estrelas (nome do livro no qual, mais tarde, descreveria suas descobertas) lançaria também as bases da astronomia moderna — 2009 é o Ano Internacional da Astronomia em sua homenagem — e do método científico.

— Galileu representa um dos maiores impactos que o conhecimento humano já sofreu — afirma o astrônomo Victor D’Avila, do Observatório Nacional. — Foi dele o grande passo da ciência moderna. Ele simplesmente descobriu a chave de como raciocinar de forma científica e objetiva. Os gregos acreditavam que raciocinar era suficiente.

Galileu mostrou que era preciso observar, raciocinar, concluir e comprovar. E até hoje essas são as bases do método científico.

DNA do astrônomo pode ser estudado

Até a guinada dos telescópios de Galileu, acreditava-se — com o apoio e até mesmo a pressão da Igreja — que o Sol, os planetas e as estrelas giravam em torno da Terra, que, imóvel, seria o centro do Universo. O clérigo polonês Copérnico já havia contestado essa visão geocêntrica do Universo em 1543, mas não havia conseguido provar sua tese de um Universo heliocêntrico. Pensavase também, como Aristóteles e seus seguidores, que a Lua era perfeita, bem como os demais corpos celestes.

Ao se apropriar de um instrumento construído na Holanda e modificá-lo, tornando o telescópio até 32 vezes mais potente, Galileu conseguiu dar bases científicas para a tese heliocêntrica de Copérnico.

— Além disto, as observações que ele fez também revelaram que a superfície lunar não era lisa, mas tinha crateras e era imperfeita — lembra Duília de Mello, pesquisadora do Centro Goddard, da Nasa. — Todas estas descobertas foram muito importantes para provar a ideia de que o Universo não era perfeito pois o próprio Sol e a Lua não eram esferas perfeitas como se pensava antes. Foi Galileu também que observou pela primeira vez as fases do planeta Vênus e as manchas solares.

Com tudo isso, Galileu removeu o homem de sua suposta posição privilegiada no Universo.

Como a Terra, na visão do astrônomo, o homem não seria o centro. E isso desagradou a Igreja. Galileu foi condenado pela Inquisição, por heresia, primeiro privadamente, em 1616, e depois, num julgamento público, em 1633.

Para se salvar, teve que se retratar. Desde então, existe o mito de que ele teria dito, sobre a Terra, ao se afastar da mesa onde assinara sua retratação: “Mas que ela gira, gira”.

— O livro responsável por sua condenação pela Inquisição, em 1633, foi escrito em italiano, e não em latim, o que permitiu que ele fosse lido por um público muito maior do que o representado pela elite cultural da época — diz a pesquisadora Maria de Fátima Saraiva, do Departamento de Astronomia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

— Hoje sabemos que é isso o que garante o sucesso do cientista: usar o melhor instrumento para obter os melhores dados, fundamentar teoricamente as suas observações e publicar seus resultados.

Aproveitando as comemorações dos 400 anos das primeiras observações de Galileu, pesquisadores do Instituto da História da Ciência, em Florença, na Itália, querem exumar o corpo do astrônomo, enterrado naquela cidade, para estudar o seu DNA. Eles pretendem saber como Galileu consegui avançar em suas pesquisas ao mesmo tempo em que lutava contra uma doença degenerativa nos olhos, que o deixou cego.