8 de jan de 2010

Todos à Copenhague

Sergio Luiz Fontes*

O mundo vai acabar. A humanidade tem se preocupado com esta ameaça ao longo de toda história. E no final das contas, de fato, o mundo sempre acaba para todos nós. Para Edward Lorenz, o fim do mundo foi no dia 16 de abril de 2008. Meteorologista e matemático brilhante, ele morreu de câncer aos 90 anos.

Durante sua vida, Lorenz revolucionou a ciência ao formular a Teoria do Caos quando tentava compreender porque é tão difícil fazer previsões meteorológicas. Em linhas gerais, a teoria diz que uma mudança aparentemente insignificante nas condições iniciais de sistemas complexos como o clima pode causar impactos inimagináveis no resultado final. Para Lorenz, era como se "o bater das asas de uma borboleta no Brasil causasse, tempos depois, um tornado no Texas”. Daí o chamado Efeito Borboleta.

A ameaça mais popular do momento ao mundo é o aquecimento global. Descobrimos que o clima oscila mais do que gostaríamos e ainda não sabemos exatamente os motivos. Uma das conseqüências disto é que as pesquisas na área de meteorologia e mudanças climáticas vêm recebendo cada vez mais recursos. No entanto, ainda não é possível prever o clima, com boa probabilidade de acerto, para daqui a três semanas. Neste sentido, nada mudou muito desde Lorenz.

Em dezembro, o mundo esteve com todas as atenções voltadas para Copenhague, onde ocorreu a 15ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas. Enquanto as principais lideranças do planeta se dirigiam para o rico e artificialmente aquecido norte da Europa, centenas de milhões de milhões de pessoas sofriam com a falta de água própria para o consumo em outras regiões mais ao sul do globo, com sede, doenças e até guerras. E esta não pode ser simplesmente encarada como uma conseqüência do aquecimento global, que não se pode nem mesmo afirmar se realmente existe.

Segundo a ONU, cada pessoa precisa de 20 a 50 litros de água potável por dia para garantir suas necessidades básicas de sede, alimentação cozida e limpeza. Um sexto da população mundial não consegue atingir este mínimo. A diarréia é a principal causa de doenças e mortes em todo o planeta. Na África subsaariana, o tratamento de diarréia consome 12% do orçamento de saúde. Em um dia comum, mais da metade dos leitos dos hospitais dos países da região estão ocupados por pacientes com o problema. E o simples ato de lavar as mãos – quando se tem água – reduz em 47% os riscos de diarréia. Mas 2,5 bilhões de pessoas, incluindo 1 bilhão de crianças, vivem sem saneamento básico. A cada 20 segundos uma criança morre por isso, sendo 1,5 milhão de mortes que poderiam ter sido evitadas todos os anos.

Não é uma previsão catastrófica, o fim do mundo, mas um problema com soluções econômicas e, principalmente, políticas. Enquanto cientista, preocupo-me mais em desenvolver projetos que ajudem a mapear e a promover uma boa gestão dos recursos hídricos do que com a suposta elevação dos mares daqui a 50 anos.

Minha especialidade, a geofísica, é muito útil em projetos deste tipo, utilizando ferramentas similares as que são usadas na exploração de petróleo. A propósito, além de água, energia é outro tema pelo menos tão importante quanto as mudanças climáticas, como todos puderam sentir com o último apagão do Brasil. O petróleo ainda é a principal fonte de energia do mundo. Mas, se há indícios de que os gases poluentes podem nos causar problemas, porque não buscar fontes alternativas de energia, como a solar e a de fusão? E se não encontrarmos uma saída viável, que não atrapalhe o desenvolvimento de regiões pobres como a América Latina e a África? Vamos levar 6 bilhões de pessoas para viver na plácida Copenhague?

*Sergio Luiz Fontes é doutor em Geofísica pela University of Edinburgh e diretor do Observatório Nacional.

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