8 de abr. de 2010

Folha de S.Paulo

04/03/2010

Asteroide acusado de extinguir os dinossauros é inocentado

RICARDO MIOTO
DA REPORTAGEM LOCAL

O principal suspeito de ter sido o asteroide que levou os dinossauros à extinção acaba de ser inocentado do crime. A defesa foi apresentada por uma dupla de astrônomos do Rio.
O trabalho que eles contestam ganhou projeção em 2007. Na época, um trio internacional propunha um culpado pelo extinção dos dinos, há 65 milhões de anos. Relacionaram o episódio com outro muito anterior, de 160 milhões de anos, quando um asteroide gigante se chocou com outro entre as órbitas de Marte e Júpiter.
A trombada resultou em várias lascas voando para todos os lados -a família Baptistina de asteroides. Uma delas teria vagado por 95 milhões de anos pelo Sistema Solar antes de se chocar com a Terra.

"Sem chance"
Mas o novo estudo mostra que "não tem nenhuma chance de ter sido ele", segundo Jorge Carvano, astrônomo do ON (Observatório Nacional).
Ele observou, com Daniela Lazzaro, também do ON, o 298 Baptistina, que é o "asteroide pai", do qual as lascas foram arrancadas. Medindo quanta luz ele reflete (o albedo), souberam mais sobre as suas características e compararam-nas com as do objeto que atingiu a Terra, levantou uma nuvem de poeira que causou as extinções e deixou como vestígio a cratera de Chicxulub (México).
Os dados não batiam. "Existem materiais que refletem menos luz, como carvão, e menos, como gelo. O albedo não permite que se diga exatamente qual a composição do asteroide, mas dá para afirmar que ela não bate com a do objeto que se chocou com a Terra", afirma Carvano.
O asteroide que caiu no México refletia pouca luz (albedo baixo). O 298 Baptistina, muita (albedo alto). Os resultados serão publicados na revista científica "Monthly Notices of the Royal Astronomical Society".
"O grupo do estudo de 2007 não faz observação. É um grupo que faz pesquisa teórica [ou seja, modelos matemáticos], eles levantaram hipóteses bastante forçadas", diz Carvano.
Além disso, em uma escala de milhões de anos, o albedo influencia o movimento do objetivo, por causa das forças que são criadas pela interação com a luz do sol. "[O grupo de 2007] não sabia qual era o albedo e assumiu um valor errado." Ou seja, a lasca apontada como culpada deve ter feito um caminho bem diferente do imaginado.
A origem do objeto que acertou a Terra volta, então, a ser uma dúvida. "Pode até ter sido um cometa", diz Carvano.

Começam os preparativos para Semana Nacional de C&T 2010

A Ciência para o Desenvolvimento Sustentável é o tema da 7ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT) de 2010. Organizado pelo Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), o evento se realiza de 18 a 24 de outubro, em mais de 500 municípios. Nesta quinta-feira (8), coordenadores das atividades estaduais e do MCT se reuniram pela primeira vez, em Brasília, para discutir os preparativos da SNCT.
Participaram o diretor do departamento de Difusão e Popularização do Ciência (DDPC/MCT), professor Ildeu de Castro Moreira, representantes de universidades e coordenadores do Amazonas, Goiás, Piauí, Espírito Santo, Alagoas, Pernambuco, Maranhão, Pará, Paraná, Acre, Bahia, Rio Grande do Norte, Mato Grosso, Rondônia e São Paulo.
O objetivo da SNCT é mobilizar a população, principalmente crianças e jovens, em torno de temas e atividades de Ciência e Tecnologia. As atividades são gratuitas e promovidas por universidades, instituições de pesquisa, parques ambientais, zoológicos, museus, jardins botânicos e Organizações Não Governamentais (ONGs). Tendas de ciência em praças públicas, palestras, excursões científicas e feiras fazem parte da programação.
Alcançar um número maior de municípios participantes da SNCT é o desafio dos coordenadores. Para a gestora de políticas públicas da Fundação de Tecnologia do Estado do Acre (Funtac), Vasti Quintana, o tema desta edição favorece as atividades no Acre, uma vez que o estado tem uma forte política de desenvolvimento sustentável. “Pretendemos levar universitários ao máximo de escolas municipais de ensino fundamental para disseminar, de forma lúdica, questões relacionadas ao meio ambiente e a sustentabilidade”, disse ela.
Os coordenadores de Minas Gerais também querem expandir o evento para mais municípios. A coordenadora do Programa de Popularização de C&T, da Secretaria de Estado de Ciência e Tecnologia de Ensino Superior (Sectes), Maria das Graças Rodrigues Brant, espera a participação de metade das 853 cidades mineiras. De acordo com ela, o número de municípios participantes tem aumentado nos últimos eventos. Em 2009, participaram 90 cidades, número três vezes maior que o de 2008, quando participaram apenas 30 municípios.
Os debates da SNCT serão focados na preocupação em associar crescimento econômico à proteção do meio-ambiente, à preservação da vida e à melhoria da qualidade de vida das pessoas. De acordo com o professor Ildeu, as atividades estimularão a discussão de estratégias de se utilizar os recursos naturais e a rica biodiversidade nacional de forma sustentável e conjugada com a melhoria das condições sócio-econômicas da população.

Seminário abre o ano de cooperação entre Brasil e Alemanha

A abertura do Ano Brasil-Alemanha da Ciência, Tecnologia e Inovação será na próxima segunda-feira (12), às 14h30, no Centro de Convenções do Sheraton São Paulo Hotel. Participam do evento o ministro da Ciência e Tecnologia, Sergio Rezende, a ministra da Educação e Pesquisa da Alemanha, Annette Schavan, e o diretor do Instituto Alemão de Pesquisa para o Desenvolvimento, Dirk Messner.
No mesmo dia se realiza o Seminário Brasil e Alemanha na Era do Conhecimento e Inovação.
O objetivo da iniciativa é intensificar a cooperação científica e tecnológica, com especial ênfase na promoção da inovação e do desenvolvimento sustentável, assim como divulgar o potencial dos dois países como locais propícios para a inovação.

BLOG CIÊNCIA MALUCA

http://super.abril.com.br/blogs/cienciamaluca/


Estudantes preferem universidades em cidades nubladas

07 Abr 2010 09:13

“Pra onde não tenha Sol... é pra lá que eu vou...”

Um pesquisa feita com 1284 visitantes da Universidade de Pensilvânia revelou que que estudantes que visitam a universidade pela primeira vez em um dia nublado tem 9% mais probabilidade de se inscrever nela do que aqueles que a visitam em um dia de sol.

Segundo o coordenador da pesquisa
, professor Uri Simonsohn, a escolha em dias nublados reflete uma preferência dos estudantes: a de fazer seus deveres de casa em dias mais amenos e sair para se divertir em dias de sol. Essa associação, então, faz com que os alunos relacionem as universidades visitadas em dias nublados com o mundo acadêmico, e não com a diversão, e por isso, acabam o optando por se inscrever.

Será que no Brasil isso ia rolar, hein?

Folha de S.Paulo


04/04/2010
+MARCELO GLEISER

A "máquina do Big Bang"
LHC pode ajudar a separar a ficção dos fatos, o objetivo da ciência

Bem, não é exatamente a máquina do Big Bang, mas chega perto. Semana passada, físicos de dezenas de países trabalhando no Cern (Centro Europeu de Física Nuclear) conseguiram colidir prótons a velocidade próxima à da luz.
O Grande Colisor de Hádrons (LHC), a maior máquina já construída na história da civilização, consiste em um túnel circular de 27 km de circunferência, enterrado 100 metros no subsolo. Feixes de prótons viajam nos sentidos horário e anti-horário, e são forçados a colidir através da ação de magnetos extremamente potentes. As colisões literalmente transformam energia em matéria, de acordo com a famosa equação E=mc2: a energia de movimento dos prótons é transformada em inúmeras partículas, os tijolos fundamentais da matéria. Por isso, os físicos tentam atingir energias cada vez mais altas: quanto maior a energia de movimento, mais pesadas as partículas que podem surgir da colisão.
O LHC acaba de quebrar o recorde de energia, alcançando o incrível valor de 7 trilhões de elétron-volts, equivalente à energia armazenada na massa de 7 trilhões de prótons. Seu concorrente, o Tevatron do laboratório americano Fermilab, atinge "apenas" 1 trilhão de elétron-volts.
As energias atingidas são equivalentes às que existiam a um trilionésimo de segundo após o Big Bang. Daí a qualificação de máquina do "quase" Big Bang. Incontáveis teses de doutorado e carreiras inteiras foram dedicadas à sua construção, que levou 16 anos e custou US$ 10 bilhões. A esperança é que os dados que serão produzidos pelo LHC resolvam alguns dos mistérios mais profundos da física atual. (E gerem muitas aplicações tecnológicas.) A lista de resultados ansiosamente aguardados é extensa, mas eis os mais importantes, em ordem crescente de especulação:
1) Encontrar a partícula de Higgs, que supostamente dá massa a todas as outras partículas que existem, do familiar elétron aos menos familiares quarks. (Claro, ainda não saberemos como o Higgs ganha a sua massa, mas esta é uma outra questão...) Se o Higgs for encontrado, confirmará teorias propostas há mais de 40 anos. Se não for, tornará a existência de massa ainda mais misteriosa, o que é uma possibilidade mais interessante.
2) Encontrar partículas de matéria escura. Matéria escura, como diz o nome, não produz luz. Alguns tipos de matéria ordinária, como planetas e pessoas, também são escuros, isto é, não brilham sozinhos. Mas a quantidade de matéria escura que inferimos existir no cosmo, cerca de 23% do total, é seis vezes maior do que a de matéria ordinária. Sabemos que existe, pois através da sua gravidade ela influencia a matéria que brilha, como galáxias e estrelas. O LHC pode encontrar o candidato mais popular para a matéria escura. Com isso, confirmaria também a existência da hipotética supersimetria, que dobra o número de partículas que existem, proposta 35 anos atrás. Iniciaria uma caça a essas partículas todas.
3) Dimensões extra. Teorias de unificação propõem que as quatro forças que vemos são manifestações de uma só. Em geral, são formuladas em espaços com mais de três dimensões. As supercordas, por exemplo, existem em 9 ou 10 dimensões . O LHC não encontrará essas dimensões, mas pode encontrar traços de sua existência. Dos itens acima, o primeiro provavelmente será resolvido. Os outros dois, ninguém sabe. Uma máquina como o LHC pode ajudar a separar a ficção dos fatos -e esse é o objetivo da ciência. Devemos ter a liberdade de imaginar hipóteses sobre o mundo.
Mas devemos também ter a humildade de aceitar o que a natureza está nos dizendo. Basta ouvi-la.
MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA) e autor do livro "Criação Imperfeita"

8 de jan. de 2010

Todos à Copenhague

Sergio Luiz Fontes*

O mundo vai acabar. A humanidade tem se preocupado com esta ameaça ao longo de toda história. E no final das contas, de fato, o mundo sempre acaba para todos nós. Para Edward Lorenz, o fim do mundo foi no dia 16 de abril de 2008. Meteorologista e matemático brilhante, ele morreu de câncer aos 90 anos.

Durante sua vida, Lorenz revolucionou a ciência ao formular a Teoria do Caos quando tentava compreender porque é tão difícil fazer previsões meteorológicas. Em linhas gerais, a teoria diz que uma mudança aparentemente insignificante nas condições iniciais de sistemas complexos como o clima pode causar impactos inimagináveis no resultado final. Para Lorenz, era como se "o bater das asas de uma borboleta no Brasil causasse, tempos depois, um tornado no Texas”. Daí o chamado Efeito Borboleta.

A ameaça mais popular do momento ao mundo é o aquecimento global. Descobrimos que o clima oscila mais do que gostaríamos e ainda não sabemos exatamente os motivos. Uma das conseqüências disto é que as pesquisas na área de meteorologia e mudanças climáticas vêm recebendo cada vez mais recursos. No entanto, ainda não é possível prever o clima, com boa probabilidade de acerto, para daqui a três semanas. Neste sentido, nada mudou muito desde Lorenz.

Em dezembro, o mundo esteve com todas as atenções voltadas para Copenhague, onde ocorreu a 15ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas. Enquanto as principais lideranças do planeta se dirigiam para o rico e artificialmente aquecido norte da Europa, centenas de milhões de milhões de pessoas sofriam com a falta de água própria para o consumo em outras regiões mais ao sul do globo, com sede, doenças e até guerras. E esta não pode ser simplesmente encarada como uma conseqüência do aquecimento global, que não se pode nem mesmo afirmar se realmente existe.

Segundo a ONU, cada pessoa precisa de 20 a 50 litros de água potável por dia para garantir suas necessidades básicas de sede, alimentação cozida e limpeza. Um sexto da população mundial não consegue atingir este mínimo. A diarréia é a principal causa de doenças e mortes em todo o planeta. Na África subsaariana, o tratamento de diarréia consome 12% do orçamento de saúde. Em um dia comum, mais da metade dos leitos dos hospitais dos países da região estão ocupados por pacientes com o problema. E o simples ato de lavar as mãos – quando se tem água – reduz em 47% os riscos de diarréia. Mas 2,5 bilhões de pessoas, incluindo 1 bilhão de crianças, vivem sem saneamento básico. A cada 20 segundos uma criança morre por isso, sendo 1,5 milhão de mortes que poderiam ter sido evitadas todos os anos.

Não é uma previsão catastrófica, o fim do mundo, mas um problema com soluções econômicas e, principalmente, políticas. Enquanto cientista, preocupo-me mais em desenvolver projetos que ajudem a mapear e a promover uma boa gestão dos recursos hídricos do que com a suposta elevação dos mares daqui a 50 anos.

Minha especialidade, a geofísica, é muito útil em projetos deste tipo, utilizando ferramentas similares as que são usadas na exploração de petróleo. A propósito, além de água, energia é outro tema pelo menos tão importante quanto as mudanças climáticas, como todos puderam sentir com o último apagão do Brasil. O petróleo ainda é a principal fonte de energia do mundo. Mas, se há indícios de que os gases poluentes podem nos causar problemas, porque não buscar fontes alternativas de energia, como a solar e a de fusão? E se não encontrarmos uma saída viável, que não atrapalhe o desenvolvimento de regiões pobres como a América Latina e a África? Vamos levar 6 bilhões de pessoas para viver na plácida Copenhague?

*Sergio Luiz Fontes é doutor em Geofísica pela University of Edinburgh e diretor do Observatório Nacional.