8 de abr de 2010

Folha de S.Paulo

07/04/2010

"GPS" russo busca parceria com empresas brasileiras

O Glonass, criado na Guerra Fria, está perto de ser completado, afirma agência Rússia vê chance de criação conjunta para usos como monitoramento de estradas e transporte urbano; sinal promete ser mais "aberto".

25.set.2008/Associated Press
Foguete russo Proton decola evando um dos satélites Glonass

REINALDO JOSÉ LOPES
DA REPORTAGEM LOCAL
Uma alternativa russa ao GPS (Sistema de Posicionamento Global), que ficou abandonada com o fim da Guerra Fria e agora está ressurgindo das cinzas, foi apresentada a empresários brasileiros como uma oportunidade para novos negócios, em reunião organizada ontem pelas agências espaciais do Brasil e da Rússia.
O Glonass, como é conhecido o GPS russo, já tem 21 dos 24 de seus satélites previstos em funcionamento e deve chegar ao final deste ano com capacidade de operação praticamente completa. A delegação da Roscosmos (a agência russa) defendeu durante o encontro em São Paulo que há espaço para a cooperação com empresas brasileiras na criação de aplicações do sistema, como monitoramento de estradas, controle de tráfego urbano e otimização de atendimento de emergência.
"Na Rússia, as colaborações com a indústria são, na melhor das hipóteses, PPPs [parcerias público-privadas]", diz Raimundo Mussi, coordenador técnico-científico da AEB (Agência Espacial Brasileira). "Aqui, a chance deles de trabalhar com a iniciativa privada para valer é muito maior, e as nossas empresas têm capacitação para isso", afirma Mussi.
Embora o GPS seja um sistema estabelecido e usado largamente mundo afora, há argumentos estratégicos para não excluir a utilização de sistemas alternativos, como o Glonass e o europeu Galileo (esse, ainda relativamente incipiente, só deve entrar em operação a partir de 2014). "No caso do GPS, nós não temos a chave", diz Mussi, referindo-se ao fato de que, por ser gerido pelas Forças Armadas dos EUA, o sistema americano pode, em tese, sofrer alterações por causa de necessidades militares.
"Durante a invasão do Iraque, foi possível sentir problemas com o GPS", lembra Cileneu Nunes, representante da empresa de rastreamento Zatix, que compareceu ao encontro e se disse "bem impressionado" com as propostas russas.

"Cru"
"Estive em Moscou há três anos, quando o sistema ainda estava muito cru. Eles avançaram muito", afirma Nunes.
Na tentativa de tornar seu sistema mais sedutor, os russos também planejam oferecer, de graça, a resolução mais apurada de rastreamento, na escala de decímetros (décimos de metro). "Pode não fazer diferença numa estrada, mas faria diferença para você estacionar, por exemplo", diz Mussi. Segundo ele, o GPS não libera essa precisão para uso civil, e os europeus planejam fazê-lo apenas para os usuários que pagarem. Além disso, ter sistemas que "falem" com mais de uma rede de navegação "aumenta a confiabilidade, porque mais satélites "enxergam" você", lembra Fernando Walter, do ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica).
Gilberto Câmara, diretor do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), diz que considera baixa a chance de que surjam restrições ao uso do sinal do GPS para o Brasil. "Também é preciso lembrar que tecnologias como as dos smartphones vêm dos EUA e usam o GPS. Portanto, o desenvolvimento de novos produtos com o Glonass teria de levar isso em conta", afirma Câmara.

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