3 de mar de 2015

Bi-bip Cósmico Aquece Ambiente Astronômico

O título refere-se a uma metáfora. A imagem, comum em países da Europa, é a de um carro buzinando perto de sua casa, ao passar. No Brasil, a imagem seria um apito de trem, talvez, mas não para quem tem menos de 50 anos, pois os trens deixaram de fazer parte de nossas vidas como antigamente. 

Pois foi com essa imagem que a revista Nature publicou e festejou uma descoberta feita recentemente pelo americano Erik Mamajek, que lidera uma equipe multinacional onde se incluem outros americanos, ingleses, alemães, russos e sul-africanos. Há uma grande chance que uma estrela tenha, num passado recente, cruzado “nossa calçada”, como um Ford-bigode a fazer fon-fon em frente da nossa janela.


A referida estrela foi, também, uma descoberta. Por meio de um estudo criterioso de catálogos obtidos por sondas espaciais, o alemão Ralf-Dieter Scholz, em 2014, apontou uma estrela como a mais próxima do sol observada. Algo em torno de 0,9 anos-luz. Usualmente, consideramos o sistema binário alfa-centauro como a mais próxima, porque ele é brilhante e sua distância é de cerca de 4 anos-luz do nosso Sistema Solar. Além disso ele percebeu que se tratava de um sistema binário, onde a estrela principal seria uma “anã-vermelha”, classificação dada a estrelas muito fracas e emitindo radiação principalmente na faixa do vermelho, sinal de pequena massa e a companheira, uma “anã-marrom”, que, pela sua massa, não tem energia nem para produzir luz. Uma boa candidata a ter explorada a possibilidade de existência de planetas do tipo terrestre, como o próprio Scholz sugeriu em seu artigo na revista européia Astronomy & Astrophysics, em 2014.

A pergunta é: se está tão próxima, porque nunca ninguém a notou? A estrela de Scholz, como passou a ser chamada, também é muito fraca, mesmo para ser observada com telescópios de médio porte. Sua magnitude está entre 19 e 17 (ninguém nunca se preocupou em medir sua magnitude visual).

Pois bem, Mamajek e sua equipe perceberam que essa pequena dupla possuía uma baixa velocidade de movimento próprio, ou seja, a componente da velocidade no plano do céu. Isso poderia ser um indicativo que a velocidade radial, na direção do sistema solar, seria grande, o que coloca esse sistema em rota de colisão com o nosso. Partiram, então, para observações no Grande Telescópio Sul-Africano e delas chegaram à seguinte conclusão: essa estrela binária estava se afastando a alta-velocidade. Não havia mais dúvidas. Há uma grande probabilidade dessa estrela ter passado rente a nós num passado recente.

Para confirmar essa hipótese, utilizaram poderosas ferramentas computacionais para fazer simulações, com base nos dados observados e concluíram que esse sistema aproximou-se do Sol até uma distância entre 30 mil e 70 mil vezes a distância da Terra ao Sol há cerca de 70 mil anos. Isso é passar pela chamada nuvem de Oort, aquele contingente de um infindável número de cometas presos ao campo gravitacional do Sol em órbitas circulares a passear com períodos de milhões de anos. 

O astrônomo holandês Jan Oort, em artigo de 1950 sugeriu a existência de uma nuvem de cometas, que acabou por levar seu nome. Essa foi a forma que Oort encontrou para explicar a existência desses objetos no sistema solar, únicos a apresentar altíssima excentricidade em suas órbitas, algumas apresentando períodos de milhões de anos, dentro da precisão que se podia obter. Esses cometas teriam suas órbitas circulares e muito perturbadas por passagens de estrelas pelas imediações do Sol, conjecturou Oort. Com isso os cometas seriam lançados para o interior do sistema solar, para dentro da região dos planetas. O problema é que por mais que se observasse, depois que Oort formulou essa hipótese, nunca se achou estrelas candidatas que tenha passado tão perto de nós. Na década de 80, formulou-se outra possibilidade, a que essa perturbação na órbita dos cometas, fazendo-os “cair” no interior do sistema planetário teria origem no campo galático, mais precisamente, variações espaciais desse campo, ou seja, originárias do que chamamos forças de maré, em analogia às forças que geram as marés nos oceanos terrestres produzidas pela Lua e Sol.

A ideia dos “passeios” de estrelas pelas imediações do sistema solar externo (muito, muito longe do sol, realmente) ficou meio que “esquecido”, desde então. Até essa descoberta de Mamajek que reacende as esperanças de encontrar mais candidatas a preencher as condições originais de Oort.

Esse é o motivo da festa com que a comunidade astronômica recebeu essa descoberta, exposta no artigo de apresentação de Ron Cowen, no último número da revista Nature.

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