11 de jun de 2010

Pode o Brasil empenhar R$ 1 bilhão da pesquisa científica sem análise técnica?

Revista Pesquisa Fapesp
NOTÍCIAS
Edição Online - 27/05/2010


É isso que está em jogo com as tratativas políticas para o Brasil entrar como membro pleno do ESO, o consórcio europeu de telescópios situados no Chile.
Augusto Damineli*
© ESO
Desenho do E-ELT: maior telescópio do ESO ( e do mundo)
está previsto para estar pronto em 2018.

A imprensa tem noticiado que o ministro da Ciência e Tecnologia, Sergio Rezende, assessorado por dois astrônomos e um diplomata, está em negociações com o ESO (European Southern Observatory) visando a entrada do Brasil nesse consórcio. O pressuposto é de que a astronomia brasileira merece ter acesso à próxima geração de telescópios extremamente grandes (ELTs). Entretanto, isso não pode ser a um custo tão elevado e sem demonstrar os benefícios. Existem opções melhores para atingir esse objetivo e que custariam menos. Vejamos nossa situação atual e as alternativas futuras.

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Outra opinião

■ Para conhecer um ponto de vista diferente sobre a entrada do Brasil no ESO, acesso artigo de Beatriz Barbuy

Situação atual do Brasil: O país tem cotas de 5% nos dois telescópios Gemini de 8 metros de diâmetro (um no Chile e outro no Havaí) e de 31% do tempo de observação no telescópio Soar (Southern Observatory for Astrophysical Research, também no Chile), de 4 metros. Através de troca de tempo, tem também acesso aos telescópios Keck de 10 metros (Havaí), Subaru de 8 metros (operado pelo Japão, mas situado no Havaí) e Blanco de 4 metros (Chile). O Brasil também compra 10 noites de observação por ano no telescópio de 3,6 metros do CFHT (Canada France Hawaii Telescope). Nota importante: a cota de pagamento, nesses casos, corresponde à fração de noites de observação por ano disponíveis para o Brasil. Uma cota de 5% dá, portanto, direito a 18 noites. Nenhum outro país emergente, como Rússia, China ou Índia, tem acesso a uma gama tão rica de telescópios cobrindo os dois hemisférios como o Brasil. Esses consórcios permitiram ao país contribuir com instrumentos de alta tecnologia. Em 2010-11, estaremos implantando três espectrógrafos no telescópio Soar. Isso é extremamente importante para inserir a indústria nacional em itens de tecnologia de vanguarda e é a galinha dos ovos de ouro da astronomia moderna, pois cada avanço da eletrônica, óptica ou computação oferece uma oportunidade de saltos na aquisição de dados.
Perspectivas para o futuro: Os projetos de telescópios ELTs, da classe de 30-40 metros, estão se iniciando, para entrada em operação em 2017-18. A excelente performance brasileira, comparada com a dos sócios nos consórcios atuais, indica que temos chance de bons resultados na próxima geração de telescópios. Arriscamos perder o bonde da história se não participarmos de um dos projetos ELTs. É claro que esse projeto deve prever acesso ao tempo do telescópio ELT de forma proporcional ao seu custo e permitir participação brasileira na construção de instrumentos. Vejamos as nossas alternativas futuras.

Opções (com os custos calculados ao longo de 20 anos, com inflação de 2% ao ano)

1- GMT (Giant Magellan Telescope). Diâmetro de aproximadamente 25 metros, situado nos Andes chilenos. Comprar cota de 5% a um custo total de R$ 140 milhões.

2 - TMT (Thirty Meter Telescope). Diâmetro de 30 metros, situado no Havaí. Comprar cota de 10% a um custo de R$ 380 milhões.

3 - E-ELT (ESO-Extremely Large Telescope). Diâmetro de 42 metros, situado nos Andes chilenos. Comprar cota de 5% a um custo de R$ 380 milhões.

4 - ESO. Tornar-se membro pleno do consórcio e ter acesso ao E-ELT e aos outros do ESO: 4 telescópios de 8 metros, dois de 3,6 metros e um de 2,2 metros. Adquirir cota de 10% (proporcional ao PIB) tem custo total de R$ 1,24 bilhão.

O GMT e o E-ELT têm a vantagem de estarem no hemisfério Sul, onde temos mais alvos de estudo. Os dois têm o mesmo custo por unidade de área de espelho coletor, mas o GMT já declarou sua intenção de receber um espectrógrafo brasileiro, enquanto que a entrada de um instrumento brasileiro no E-ELT seria muito difícil.

A entrada no ESO, além de cara (R$ 6 milhões por astrônomo brasileiro), tem outras desvantagens. O pagamento da cota do ESO não compra acesso ao tempo de telescópio, como ocorre nos outros casos. O ESO promete fazer um balanço para equilibrar o acesso num prazo de 10 anos, mas, nesse prazo, os alvos melhores estarão totalmente estudados e os instrumentos envelhecidos. O acesso aos bons telescópios do ESO é regulado pela competitividade, independentemente de quem pagou. Os grupos que obtêm grandes lotes de tempo são sempre os mesmos. Seria esse um bom negócio para a comunidade brasileira, que é muito mais fraca? Para a Europa que enfrenta problemas de caixa, certamente é um excelente negócio.
A lógica do ESO para a construção de instrumentos funciona bem para uns poucos grupos de instrumentação europeus. Os próprios espanhóis, que são sócios plenos, reclamam que não têm encomendas para fabricar instrumentos para o ESO na proporção da cota que pagam (9,5%, muito próxima do que seria a cota brasileira). Eles publicam mil papers de astronomia por ano, dos quais só 100 são com dados do ESO. Além de já ter emperrado os contatos com o GMT e TMT, a opção pelo ESO descontinuará nossa participação no Gemini (como está acontecendo com a Inglaterra) e impedirá novos projetos instrumentais.
Amparar-se numa comissão tão magra como a atual é a receita certa para dar errado. Um dos membros da tal comissão afirmou aos jornais que a opção de entrar já no ESO é apoiada pela “esmagadora maioria” dos astrônomos brasileiros. Essa consulta ampla não foi feita, embora a SAB (Sociedade Astronômica Brasileira) tenha mecanismos para fazê-lo eletronicamente. Diversos professores titulares do IAG-USP que são contrários à iniciativa não foram consultados e sabemos de institutos do Estado de São Paulo e de Santa Catarina que foram sondados e não apoiam a iniciativa. Mas isso não é relevante, pois interesses corporativistas não são parâmetros para orientar uma politica científica.
A própria CEA (Comissão Especial de Astronomia), criada pelo ministro, aconselhou a só tomar uma decisão após análise cuidadosa de todas as opções. É inaceitável que as negociações com o ESO tenham ido adiante sem análise técnica. Projetos muito menores do que esse, submetidos a fundações de amparo à pesquisa, rotineiramente passam por um comitê de avaliação internacional. Fugir a esse paradigma é um retrocesso. Por que tanta pressa num assunto tão importante?
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*Augusto Damineli é professor titular do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP).


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