8 de set de 2010

DA IDADE DA PEDRA À ERA ESPACIAL

O Globo Online –06/09/2010

Estudo da Unesco e IAU lista sítios do patrimônio histórico ligado à astronomia

Cesar Baima


Uma das mais antigas ciências estudadas pelo homem, a astronomia teve papel fundamental no desenvolvimento tecnológico, social e cultural de povos ao redor do mundo. Mas, até recentemente, muito pouco se sabia - e protegia - sobre o seu patrimônio histórico. Para preencher esta lacuna, a União Astronômica Internacional (IAU, na sigla em inglês) e a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) se uniram no ano passado, no âmbito das comemorações no Ano Internacional da Astronomia, e deram início a um estudo temático sobre o assunto. Este primeiro levantamento, com mais de 50 itens móveis e sítios divididos em 16 tópicos - que vão da Idade da Pedra à Era Espacial - recebeu o aval da Unesco na 34ª reunião do seu Comitê do Patrimônio Mundial, realizada em Brasília no início de agosto.

- A astronomia representa uma rica e significativa parte da herança cultural e natural compartilhada pela Humanidade - destaca Clive Ruggles, chefe do grupo de trabalho da IAU/Unesco e um dos autores do estudo. - Reconhecer isso formalmente quer dizer que agora podemos identificar e esclarecer o valor astronômico dentro da Convenção Mundial do Patrimônio.

Desde a pré-história, a observação do céu e de fenômenos celestes foi usada para contar a passagem do tempo, definir calendários e datas comemorativas, orientar plantios e colheitas, guiar viajantes e até como presságios e oráculos. Da sucessão de nascer e por do Sol delimitaram-se os dias, das fases da Lua vieram os meses e, das estações, o ano, lembra o astrofísico Carlos Veiga, chefe da Divisão de Assuntos Educacionais do Observatório Nacional.

- Levantar estas primeiras observações, como e onde eram feitas, por exemplo, é muito importante para restaurar e preservar a história da astronomia, que está na base da cultura de quase todas as sociedades - diz. - A ciência mudou tanto que sua história acabou ficando para trás, perdida no tempo. Hoje, o homem quer descobrir o Universo, mas, muitas vezes, esquece como chegou até aqui.

Um dos exemplos vem do próprio Observatório Nacional. Lá, a divisão de Veiga ocupa um prédio conhecido como "sala das horas", onde durante décadas se definia e acertava a hora oficial do Brasil três a quatro vezes por semana a partir de cálculos sobre a observação da passagem meridiana de estrelas. Hoje, esse trabalho é feito com a ajuda de um relógio atômico, que tem uma margem de erro de apenas um segundo a cada 10 milhões de anos. Fundado em 1827, o observatório é a mais antiga instituição científica do país e, segundo Kepler Oliveira, integrante do grupo de trabalho da IAU/Unesco, é um dos principais candidatos a entrar na futura lista do patrimônio histórico mundial ligado à astronomia.

- A importância é destacar que existem sítios importantes, históricos, que precisam ser conhecidos e preservados. Existe uma proposta de primeiros sítios que inclui, por exemplo, o Observatório Nacional do Rio de Janeiro - conta Oliveira. - Mas não será uma lista única. Estamos discutindo na comissão ter uma lista já aceita e uma na internet em que possamos ir incluindo outros lugares ainda em discussão. O estudo ainda está em fase inicial, longe de ser exaustivo.

De círculos de pedras a telescópios modernos

Da lista inicial deste primeiro estudo, alguns monumentos e locais já são bem conhecidos do público em geral, estando até, em casos específicos, já sob a proteção da Unesco. Um dos exemplos disso é o círculo de pedras de Stonehenge, no interior do sul da Inglaterra. Erguido de 2.500 a.C., ele está alinhado ao eixo do nascer do Sol nos solstícios de inverno e verão, numa clara relação astronômica. Já do outro lado do mundo está o belo e gigantesco complexo do observatório da Jantar Mantar, na cidade de Jaipur, na Índia. Construído na primeira metade do século XVIII, ele guarda 19 instrumentos ou grupos de instrumentos astronômicos usados para a observação do céu a olho nu em todas as coordenadas clássicas, isto é, nos sistemas horizonte-zênite, equatorial e da eclíptica, com uma precisão atingida com suas proporções monumentais. Alguns destes instrumentos estão entre os maiores existentes no mundo.

Ainda no Oriente, encontra-se o observatório de Cheomseongdae - literalmente "torre para ver as estrelas" -, na Coreia do Sul. Finalizado por volta do século VII, é o mais antigo observatório ainda em pé no Extremo Oriente, à frente de outro destaque do estudo, o observatório de Dengfeng, na China, onde uma régua de mais de 31 metros era usada para medir a variação da sombra do Sol de meio-dia ao longo do ano. Desde 2008, a China tenta incluir Dengfeng e outras construções na região na lista do patrimônio histórico mundial da Unesco e espera-se que o estudo temático reforce a candidatura.

Outra expectativa é de que o estudo ajude a corrigir grandes omissões nas descrições e preservação de monumentos já na lista de patrimônio da Unesco. Um dos casos mais evidentes é o da Catedral de Estrasburgo, na França. Embora tenha vários relógios de Sol e astronômicos em sua fachada e laterais, além de uma completa sequência simbólica das constelações do zodíaco relacionadas às atividades de cada mês, nenhuma destas características foi destacada quando da sua candidatura e inclusão na lista de patrimônio histórico mundial da Unesco em 1988.

Por fim, o estudo temático da IAU/Unesco inclui alguns dos mais representativos telescópios ainda em uso na atualidade, assim como locais, objetos e feitos relacionados à conquista espacial. Eles vão desde o observatório de Mount Wilson, na Califórnia, onde o astrônomo Edwin Hubble conduziu seus estudos que levaram à conclusão de que o Universo está se expandindo, a plataformas de lançamento e veículos espaciais que mostram que, depois de milhares de anos apenas observando, a humanidade também decidiu alcançar as estrelas.

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