25 de nov de 2014

Moléculas Orgânicas: estão elas, realmente, na origem da vida?

O feito recente da sonda Philae (Nature 515, issue 7527) carregando uma dezena de experimentos, de pousar suavemente no cometa Churyumov-Geramisenko, mesmo que em condições não tão ideais, além de encher de orgulho os controladores da Agência Espacial Europeia e deixar de boca aberta seus colegas no mundo inteiro, permitiu obter algumas informações que lançam questões muito interessantes a respeito da origem da vida no universo.

O equipamento “deu azar” e acabou se fixando a 1 km fora de seu objetivo e ficou encoberto por uma “montanha” que não lhe permite receber luz solar por muito tempo para se manter em pleno funcionamento, já que a fonte de energia é a solar.

A sonda apenas “hibernou”, pois, com um período orbital de 6,5 anos, a previsão é que o cometa passe por seu periélio em 13 de agosto de 2015, quando estará a uma distância do sol 2,3 vezes menor do que está agora, o que permitirá a sonda receber 5,5 vezes mais energia solar. Assim, brevemente ouviremos falar que a Philae “acordou” e voltou à operação, permitindo-se fazer todas ou a maior parte das experiências para a qual ela foi programada.

Antes, porém, de “cair no sono” por falta de energia, um equipamento nela instalado, levando o nome de COSAC (que faz trocadilho em inglês com “cossaco”), em português “Amostragem Cometária de Composição de Moléculas Orgânicas” teve tempo de analisar que esse tipo de moléculas faz, realmente, parte da composição do cometa.

A existência sideral desse arranjo molecular já estava sob suspeita desde que foi encontrado em alguns asteroides que aqui se precipitaram. No entanto, há algumas considerações que devíamos levantar, como a relação desses asteroides com planetas do sistema solar. A hipótese da existência dessas moléculas em períodos remotos do universo ainda aguardava uma confirmação irrefutável.

Cometas são fósseis da nuvem primordial que deu origem ao nosso Sistema Solar. Enquanto a bola gasosa colapsava no disco que originou o sistema planetário e foi a fonte que juntou massa ao astro central que formou nosso sol, átomos e moléculas, resultado da mistura das várias nuvens remanescentes de explosões de super e hipernovas, que constituíram a primeira geração de nossa galáxia, se condensavam em cometas e asteroides. Esses pequenos astros sofreram as mais diversas tensões e forças de perturbação e de maré. Alguns desses astros caíram nos já formados protoplanetas, ou foram lançados para longe, em órbitas cujos diâmetros vão até milhares de vezes a distância da Terra ao Sol numa condição “congelada”, sem perturbação de qualquer espécie.

O cometa em discussão é um desses que, ou foi capturado, ou re-capturado para uma órbita interna por ação das forças de maré da nossa galáxia e, mais tarde, pela perturbação de grandes planetas, especialmente Júpiter, após bilhões de anos sem sofrer qualquer interferência. Conhecido nos círculos científicos por P67 (P de período conhecido e 67 da sua classificação entre os periódicos), ele retorna para nos contar sobre o que “viu e sofreu” nos primórdios de nosso Sistema Solar.

E o que ele nos informa, por meio do experimento do COSAC, é que, entre outras coisas, as moléculas que deram origem à vida na Terra já existiam muito antes do próprio sistema solar existir. Essa condição é quase um insulto com nossas crenças iniciais a esse respeito. Durante muito tempo discutimos calorosamente a experiência de Stan Miller, na década de 1950, em que alguns componentes comuns na superfície terrestre, com a ajuda de descarga elétrica, bem possíveis com os raios atmosféricos, era possível a formação de aminoácidos. Polêmico desde sua elaboração, o trabalho foi alvo de intensos debates, chegando-se, inclusive, a se duvidar da sua executabilidade. A experiência de Miller derrubou um paradigma antigo que determinava que não seria possível obter moléculas orgânicas a partir de componentes inorgânicos.

As constatações do COSAC, no cometa P67, o popular Churyumov-Geramisenko, demonstra que o mundo orgânico existe há muito mais tempo e não é exclusividade da Terra, muito menos do sistema solar.

A pergunta é inevitável: se as moléculas que dão origem à vida são tão frequentes, por que não a encontramos fora da Terra? Estaria faltando alguma coisa, algum evento, algum “catalisador”?

João Luiz Kohl Moreira
Coordenação de Astronomia e Astrofísica



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