25 de ago de 2010

Blog Mulher das Estrelas

Próxima década - Parte 1

A cada dez anos a comunidade astronômica americana faz uma avaliação das descobertas científicas e sugere uma lista de projetos e as prioridades com que eles deverão ser financiados. Nada garante que estes projetos serão executados, mas o projeto que chega a entrar na lista tem maiores chances de um dia conseguir os fundos necessários da NASA, NSF (National Science Foundation) ou Departamento de Energia. Na sexta-feira passada uma comissão formada por representantes da comunidade astronômica revelou os resultados da consulta à comunidade feita pelo NRC (National Research Council of the National Academies) e que se tornaram públicos em um documento chamado Novos mundos, novos horizontes em Astronomia e Astrofísica.

Passei o fim de semana digerindo o documento e agora passo para vocês a minha interpretação do relatório para a nova década.
As áreas de interesse serão: os primórdios cósmicos, os novos mundos e a física do universo. Na primeira área daremos prioridade para os projetos que busquem pelas primeiras estrelas, primeiras galáxias e buracos negros. Estaremos fazendo paleontologia cósmica. Na segunda área daremos prioridade para os projetos que busquem por planetas habitáveis. Estaremos procurando por planetas como o nosso. A terceira área será devotada aos projetos que busquem pelo entendimento de questões fundamentais como as propriedades da energia escura, os constituintes da matéria escura e os primeiros instantes do universo. Baseada nestas três áreas de interesse científico a comissão selecionou os projetos que poderão contribuir para o avanço da ciência.
Na área de ciência espacial, o projeto considerado como prioritário foi o WFIRST (Wide-field infrared survey telescope). Um satélite que além de buscar pela misteriosa energia escura, servirá para buscar por planetas do tipo Terra. O projeto deverá começar em 2013 e ser lançado em 2020. Deverá custar por volta de 1,6 bilhões de dólares e poderá incluir parceiros internacionais mas deve ser liderado pelos EUA. Como segundo na lista de prioridades vem o chamado Explorer. A comissão recomenda que a NASA volte a financiar projetos de pequeno e médio porte e que invista 100 milhões de dolares por ano em 2 projetos de porte médio, 2 de porte pequeno e 4 missões a serem propostas dependendo da necessidade científica da década. Em terceiro e quarto lugar ficaram dois projetos caros, o LISA e o IXO. O LISA (Laser Interferometer Space Antenna) vai tentar detectar ondas gravitacionais, um fenômeno previsto teoricamente mas nunca detectado. Custará por volta de 2,4 bilhões de dolares, começará em 2016 e será lançado em 2025. O IXO (International X-ray Observatory) revelerá o universo dos raios X com uma resolução nunca obtida anteriormente, custará 5 bilhões de dolares, mas apenas 180 milhões deverão ser investidos nesta década. Tanto o LISA como o IXO deverão ter parceiros internacionais majoritários. Além destes 4 projetos de grande porte, a comissão recomendou também que se invista em programas para desenvolvimento de tecnologia. Seriam projetos de 100 a 200 milhões durante a próxima década.
Mas 1,6 bilhões de dólares não seria muito dinheiro para um único projeto como o WFIRST? Na minha opinião, não, vale a pena investir sim!! O Hubble já ultrapassou a casa dos 4 bilhões de dólares faz tempo e o JWST que deverá ser lançado em 2014 já está perto de 2 bilhões. Projetos como o WFIRST são projetos de fronteira pois estão buscando por respostas a perguntas fundamentais, como a energia escura e a existência de outras Terras. Claro que não precisamos motivar ninguém a investir na busca por planetas como o nosso. Mas o que é energia escura, vale a pena o investimento? Há alguns anos que descobrimos que o universo é permeado por uma energia invisível que foi apelidada de energia escura. Segundo os cálculos dos teóricos feitos para interpretar os mapas da radiação cósmica de fundo que são resquícios do Big Bang, 74% do universo é feito de energia escura, 22% de matéria escura e o restante é feito de estrelas, gás, poeira, etc. Ou seja, tudo que vemos no universo é uma minoria, precisamos então inventar uma forma de detectar esta tal energia escura que faz com o que o universo aonde vivemos acelere.
No próximo post falarei sobre as recomendações para a astronomia feita com telescópios na Terra. Aguardem! e em breve farei também um relato dos projetos em que a comunidade astronômica brasileira está interessada e já está investindo.

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