12 de nov de 2010

O LHC funcionou, o mudo não acabou...

 Blog Carlos Orsi - 09/11/2010


 

Rastros de partículas obtidos após colisão entre íons de chumbo no LHC

A pasta de contas a pagar aqui na mesinha do computador de casa ainda não se desintegrou, o que me leva a crer que as colisões entre íons de chumbo, iniciadas no LHC no último domingo, na Suíça, não conseguiram dar cabo do planeta Terra.

O que, suponho, é uma boa notícia. A despeito da pasta cheia de contas. Digo, de certa forma. Acabar com tudo seria meio injusto com as baleias e os golfinhos.

O parágrafo acima é uma piada (caso alguém não tenha notado; a internet estimula uma curiosa surdez no senso de ironia de certas pessoas), mas até alguns anos atrás havia quem expressasse temores de que o Grande Colisor de Hádrons (e, antes dele, o acelerador RHIC, nos Estados Unidos) pudesse desencadear uma catástrofe de proporções cósmicas.

Algumas pessoas chegaram até mesmo a entrar na Justiça para tentar impedir ativação da máquina em Genebra, a despeito do amplo consenso da comunidade científica que não haveria perigo algum.

Os temores mais articulados eram de dois tipos: o da criação de buracos negros durante as colisões entre prótons (que já vêm acontecendo no LHC há um bom tempo, e ainda estamos aqui) e o da criação de “strangelets” estáveis nas colisões entre íons — que foi o que começou a rolar no fim de semana.

Buracos negros seriam uma má ideia porque poderiam, em teoria, engolir a Terra; “strangelets” são criaturas menos conhecidas — a Disney ainda não fez um filme chamado “O Strangelet” — e merecem uma apresentação.

Ao contrário do que talvez lhe tenham dito no ensino médio, prótons e nêutrons não são partículas fundamentais: são compostos de quarks, que se mantêm unidos entre si por meio de glúons. Existem seis tipos, ou “sabores”, de quarks.

Os que nos interessam são três: up, down e strange. Os sabores up e down são os do que você, eu e as minhas contas a pagar somos feitos. O strange já foi detectado em raios cósmicos e produzido em laboratório, mas é instável e se desintegra em nanossegundos, ou ainda menos.

Partículas mais complexas, contendo quarks strange (como prótons e nêutrons contêm os sabores up e down) também já foram produzidas, e também se desintegram muito depressa.

Algumas especulações teóricas propõem, no entanto, que podem existir configurações de quarks up, down e strange que sejam estáveis e tenham carga elétrica negativa. Esses “strangelets” atrairiam o núcleo dos átomos de matéria normal ao redor e começariam a engoli-los, numa reação em cadeia que transformaria toda a matéria da Terra numa forma exótica, incapaz de suportar vida — ou, ao menos, a nossa forma de vida.

A revisão de segurança do LHC (que pode ser lida na íntegra aqui) já havia concluído que não só a possibilidade de existência de strangelets perigosos — estáveis e de carga negativa — é muito, muito baixa, como também que a formação desse tipo de partícula no LHC é virtualmente impossível.

Mesmo se a natureza permitir a existência de strangelets perigosos, as temperaturas do LHC inviabilizariam seu surgimento: seria como ver gelo se formando, por mero acaso, dentro de um forno de pizza aceso.

Meu cenário de fim do mundo favorito, no entanto, é o da bolha de vácuo: a ideia de que o LHC poderia criar um novo tipo de “espaço vazio” que seria mais estável que o “espaço vazio” ordinário do Universo. Esse vácuo super-estável começaria a se expandir, apagando o nosso Universo e pondo outro no lugar.

Se isso fosse possível nas energias que o LHC atinge, no entanto, raios cósmicos já teriam desencadeado uma catásfrofe equivalente há tempos.

Aliás, não há nada que aconteça no LHC que já não tenha sido feito na natureza, nas colisões de partículas dos raios cósmicos com a superfície de luas, estrelas e planetas. E ainda não há strangelet ou bolha de vácuo que vá sumir com as contas a pagar.

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