8 de out de 2010

A ciência da paixão?

Folha de São Paulo - 03/10/2010


Marcelo Gleiser
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Testes podem conectar a paixão às suas raízes
evolutivas primitivas, mas não roubam a sua mágica.
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O que a ciência tem a dizer sobre a misteriosa emoção que faz com que pessoas razoáveis façam coisas completamente loucas, tanto boas quanto más?
Na última década, vários estudos buscaram desvendar o que ocorre no cérebro quando se está apaixonado. Um dos mais conhecidos, encabeçado pela antropóloga Helen Fisher, da Universidade Rutgers (EUA), examinou mais de 3 mil imagens das atividades neuronais de 18 jovens apaixonados.
As imagens mapeiam o fluxo de sangue no cérebro: quanto maior a atividade neuronal, maior a necessidade de oxigênio e, portanto, mais sangue. Juntando essa informação ao conhecimento acumulado dos compostos químicos das ligações neuronais nas diversas partes do cérebro, cientistas podem isolar aqueles que participam em maior concentração quando certas emoções ocorrem. Incluindo, claro, a paixão.
Como Fisher escreveu na revista "Time", "muitas partes do cérebro são ativadas quando pessoas apaixonadas pensam em seus amores...
Nossa descoberta mais importante foi o papel do núcleo caudado, uma região em forma de C que fica perto do centro do cérebro. É muito primitiva, parte do que chamamos de cérebro reptiliano, pois evoluiu ainda antes dos mamíferos proliferarem há 65 milhões de anos."
No calor da paixão, o núcleo caudado é inundado por dopamina vinda da área tegmentar ventral , a grande fábrica de dopamina no cérebro. Ela induz sensação de euforia e de hiperatividade, marcas registradas da paixão. Atividades semelhantes também foram encontradas quando pessoas comem chocolate.
Portanto, como já suspeitávamos, a paixão age como uma droga.
As descobertas indicam que a atração romântica é um imperativo biológico antigo, como a fome e o sexo. Mesmo assim, sua manifestação em humanos é particularmente complexa, com alto nível de sofisticação e diversidade. Hipopótamos não escrevem poemas de amor.
Seu papel parece ser fixar o foco em apenas um companheiro. Isso pode explicar, por exemplo, porque mulheres são tradicionalmente mais "românticas", no sentido de que biologicamente devem escolher seu parceiro com mais cuidado, pois só podem se reproduzir algumas vezes em suas vidas. Já os homens podem ser menos seletivos.
Segundo este prisma, nossos cérebros sofisticados criam um sofisticado coquetel de emoções para garantir a sobrevivência da espécie.
Mas ao menos hoje, prefiro não entrar nesse terreno complexo da psicologia evolutiva.
Parece também que a secreção de serotonina dos que estão loucamente apaixonados é equivalente àquela das pessoas com TOC (transtorno obsessivo-compulsivo).
Mais uma vez, como suspeitávamos, a paixão é uma obsessão.
Claro, nada disso explica por que, quando chegamos a uma festa lotada, fixamos logo a atenção "naquela" pessoa. Os experimentos podem conectar a paixão às suas raízes evolutivas primitivas, mas não roubam a sua mágica. Não sabemos por que, quando nossos olhos caem "naquela" pessoa, as glândulas cerebrais começam a bombear como loucas. O amor torna alguém em alguém especial. E é este alguém que faz toda a diferença, seja por muito ou por pouco tempo.

MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor do livro "Criação Imperfeita"

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