1 de jul de 2010

SP quer ser rota de cientista estrangeiro

Folha de São Paulo - 29/06/2010

Fapesp aposta em bolsa alta e imposto baixo para trazer doutorandos de fora; prêmios Nobel darão curso em janeiro.
Evento é um dos que integram série de sete escolas de verão, que começaram em abril no Hospital do Câncer .


Alessandro Shinoda/Folhapress
 Yves Petroff, do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron

SABINE RIGHETTI

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

A bióloga Maria Amorim, formada pela Universidade de Chicago e pesquisadora da Universidade da Pensilvânia, nos EUA, vai fazer doutorado no Brasil.
A decisão veio após ela ter participado, em abril, de um minicurso realizado pelo Hospital do Câncer A.C. Camargo, em São Paulo, sobre pesquisas diretamente voltadas à criação de medicamentos e terapias.
"Fiquei impressionada com o nível dos trabalhos apresentados pelos pesquisadores brasileiros", disse em entrevista à Folha.

O curso foi o primeiro de uma série iniciada pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), que no começo de 2011 trará para Campinas dois "professores" de peso: os prêmios Nobel Ada Yonath (Química, 2009) e Albert Fert (Física, 2007).
"A ideia é ter cem estudantes de doutorado, 50% da América Latina e 50% de outras partes do mundo. Queremos mostrar a eles domínios que avançaram muito nos últimos anos", diz o físico francês Yves Petroff, diretor científico do LNLS (Laboratório Nacional de Luz Síncrotron), que abrigará o curso.

"TAX-FREE"

Segundo Petroff, o Brasil tem um atrativo insuspeito para estudantes estrangeiros: o valor alto das bolsas. Aqui, diferentemente da Europa, elas são isentas de impostos, afirma.

O valor da bolsa de doutorado paga pela Fapesp começa em R$ 2.053 e termina em R$ 2.541,30.

No pós-doutorado, a bolsa da Fapesp é de R$ 5.028. "O Brasil precisa de pós-doutorandos", analisou.

NA ROTA

Batizados de "Escola Fapesp", os minicursos de inverno e verão -sete aprovados até agora- fazem parte de uma política recente da fundação, voltada a atrair estudantes de pós.

Cursos do gênero são uma realidade bem conhecida em países como os EUA. Um exemplo famoso são as escolas de verão do Laboratório de Biologia Marinha, em Massachusetts, que reúne vários prêmios Nobel.

O evento coordenado por Petroff será realizado no LNLS de 16 a 25 de janeiro.

"Radiação é uma área multidisciplinar. É importante que os estudantes, antes de terminarem seu doutorado, tenham contato com estudantes de outras áreas e de outros países", diz o francês.

O minicurso do A.C.Camargo, que foi decisivo para a bióloga Amorim decidir fazer doutorado no Brasil, também é uma das propostas aprovadas pela Fapesp. O evento reuniu 40 professores, metade estrangeiros.

MULTINACIONAL

Dentre os estudantes participantes, foram 66 brasileiros e 49 de países como Holanda, Japão, Dinamarca, Portugal e Estados Unidos.

"Pesquisamos problemas complexos, como câncer e neurociências. Precisamos de pessoas que tragam novos pontos de vista e temos de criar condições para isso", disse o coordenador do evento, Emmanuel Dias Neto, do Centro de Pesquisas do Hospital A.C. Camargo.

Pesquisador de fora ajuda em rede de contatos e novas ideias

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

A realização de minicursos que tragam professores e alunos de outras regiões e países é importante para os pesquisadores paulistas. Para o diretor científico da Fapesp, Carlos Henrique de Brito Cruz, a vantagem é estabelecer redes de contatos, "essenciais na pesquisa".

Esse é o caso de outro participante do minicurso promovido pelo Hospital A.C. Camargo, o biólogo e professor da UFPA (Universidade Federal do Pará), André Salim Khayat. Ele veio de Belém para São Paulo e fez contatos importantes para o seu trabalho acadêmico.

"Estou em fase de estabelecimento de realização de projetos com um grupo de pesquisa dos EUA."

HERCULES

Campinas entrou na rota internacional de cursos científicos também pela realização do Hercules (Curso Superior Europeu de Investigação para Usuários de Grandes Sistemas Experimentais, na sigla em inglês).

Bastante conhecido na Europa, o Hercules oferece treinamento para estudantes de doutorado, pós-doutorado e cientistas sêniores de universidades europeias e não europeias em áreas que utilizam aplicações de luz síncrotron, como biologia, química, física e geociências.

Em julho, pela primeira vez, por ocasião do seu 20º aniversário, o Hercules terá uma edição latino-americana, no LNLS, em Campinas. Durante três semanas, haverá palestras sobre alguns dos conceitos e avanços mais recentes da pesquisa em radiação síncrotron em matéria condensada.

"Estou muito feliz que teremos o Hercules aqui na América Latina. Os americanos já tentaram levar o Hercules para os EUA uma vez, mas não conseguiram", concluiu o professor Petroff. (SR)

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