10 de jan de 2011

ENTREVISTA MIKE BROWN - Admito: eu matei Plutão, e acho até que ele mereceu


Folha de São Paulo - 19/12/2010




CIENTISTA QUE "REBAIXOU" O EX-NONO PLANETA DO SISTEMA SOLAR RELATA HISTÓRIA QUE MUDOU A ASTRONOMIA EM NOVO LIVRO AUTOBIOGRÁFICO

O astrônomo Brown - Nasa/Divulgação 

SALVADOR NOGUEIRA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA


Em seu primeiro livro de divulgação científica, o astrônomo Michael Brown revela com riqueza de detalhes como matou Plutão.

"É uma brincadeira, uma piada", diz o autor de "How I Killed Pluto And Why It Had It Coming" ("Como Matei Plutão e Por Que Ele Mereceu"). "Mas as pessoas que amam Plutão tendem a não entender a graça da coisa."

A ascensão do pesquisador do Caltech (Instituto de Tecnologia da Califórnia) ao estrelato se deu em 2005, quando ele descobriu o objeto que mais tarde viria a ser chamado de Éris: era o primeiro astro além da órbita de Netuno com dimensões maiores que as de Plutão.

O achado forçou a União Astronômica Internacional, órgão que diz quem é quem no Universo, a estabelecer uma definição do que é um planeta. (Acredite se quiser: antes disso, não havia uma.)

Em 2006, o rebaixamento de Plutão foi oficializado, e Brown foi escolhido pela revista "Time" uma das cem pessoas mais influentes daquele ano. A seguir, ele revela à Folha seus sentimentos pela "morte" e comenta seu papel na história toda.


Folha - O título do seu livro fala em "como matei Plutão". Primeira pergunta: o crime foi premeditado?

Michael Brown - Não, era o contrário. Quando comecei a vasculhar os céus, eu estava procurando um décimo planeta. Nunca me ocorreu que, ao achar mais coisas no Sistema Solar exterior, estaria rebaixando Plutão da condição de planeta. Achei que encontraria o décimo planeta.

Mas sua opinião sobre a condição de Plutão variou ao longo do tempo. No seu site, anos antes do rebaixamento, o sr. defendia que um planeta deveria dominar sua órbita, o que excluía Plutão. Então, dias antes da decisão da União Astronômica Internacional, o sr. mudou de lado e começou a defender que Plutão merecia a condição de planeta, nem que fosse por razões culturais...

Nas primeiras vezes em que discuti a questão, eu de fato achava que só deveria haver oito deles -Plutão ficaria de fora. Mas então, ao descobrir um objeto que era maior que ele, ficou muito claro, ou pelo menos foi o que pensei -eu estava errado-, que os astrônomos não teriam a coragem de rebaixar Plutão. Então eu tentei justificar a ideia de deixarmos tudo como estava. Havia maneiras absolutamente razoáveis, em termos culturais, para dizer: Plutão é um planeta, então fica decidido que tudo que for maior que ele acaba sendo planeta também.

E depois que eles promoveram o rebaixamento, como se sentiu a respeito?

Eu fiquei exultante. Liguei imediatamente para minha mulher e contei o que havia acontecido. Eu estava pulando de alegria, não podia acreditar. Era tão empolgante que cientistas e o resto do mundo finalmente tivessem chegado a uma definição sensata do que é um planeta, e a partir dali poderíamos todos explicar o que é um planeta falando de ciência, em vez de dizer "Bem, tem sido assim por tanto tempo que vamos manter desse jeito".

E, embora os fãs de Plutão tenham ficado furiosos, provavelmente ele nunca foi tão "promovido" quanto depois dessa decisão.

É verdade (risos). O que estava rolando no Sistema Solar exterior virou conversa de café da manhã. Mas o que me entristece é que pouca discussão foi sobre a ciência por trás dessas novas coisas. A maior parte das pessoas que se envolveu nesse debate não percebeu que as razões para a discussão eram muitas descobertas empolgantes, e o fato de que sabemos muito mais sobre o Sistema Solar do que sabíamos antes.

E agora, em meio a tantos objetos curiosos naquela região, Plutão ainda é interessante?

Eu diria que ele é um dos alvos interessantes, embora não acredite que seja o mais interessante. Tudo depende do que você acha mais importante num dado momento. Mas é certamente um dos dez objetos mais fascinantes no cinturão de Kuiper, com um bônus: é o mais fácil de estudar. É o mais próximo, o mais brilhante e o mais acessível para uma espaçonave.

Quando falamos de objetos do cinturão de Kuiper, o esquema é "viu um, viu todos", ou cada um tem as suas peculiaridades?

Cada um deles é suficientemente diferente para nos ensinar algo novo sobre o Sistema Solar e sua formação. Finalmente começamos a ter um número suficiente desses grandes objetos de forma a enxergarmos padrões, mas por um bom tempo cada um que nós encontrávamos pareceu singular.

O sr. não teme ser vilanizado pelos que queriam ver Plutão como planeta?

Eu já fui vilanizado (risos). O título é uma brincadeira, uma piada. Ninguém matou Plutão; não se pode matar um astro. Era apenas um bom jeito de transmitir a ideia do que aconteceu. Mas não importa. Fosse qual fosse o título, os fãs de Plutão continuariam a pensar que eu sou o vilão da história. Na verdade, o vilão da história, se é que há um, é a ciência. Ou Plutão mesmo, por não ser de fato um planeta, ora.

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HOW I KILLED PLUTO AND WHY IT HAD IT COMING
AUTOR Mike Brown
EDITORA Random House
QUANTO R$ 56,50 (288 págs.)

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