19 de jan de 2011

Via Láctea é "pequena", dizem brasileiros

Folha de São Paulo, 11 de janeiro de 2011



Segundo cientistas de três universidades do país, galáxia não tem os 100 mil anos-luz de diâmetro imaginados.
Eles usaram uma nova técnica para mostrar que as distâncias na galáxia seriam apenas metade do esperado.

SALVADOR NOGUEIRA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Um novo estudo feito por astrônomos brasileiros sugere que a Via Láctea, galáxia na qual está inserido o Sistema Solar, pode ser menor do que antes se imaginava.

"Determinar propriedades dela é complicado porque não podemos vê-la "de cima". Estamos no lado de dentro", diz Alessandro Moisés, da Universidade Federal do Vale do São Francisco em São Raimundo Nonato (Piauí).

Ele foi o primeiro autor do estudo feito em colaboração com cientistas da USP, da Univap e de duas instituições americanas. O trabalho foi publicado no periódico "Monthly Notices of the Royal Astronomical Society".

A forma tradicional de mapear a galáxia é estudar regiões com a presença de muito gás e formação intensa de estrelas de alta massa.

A análise dos sinais de rádio emitidos por essas regiões permite inferir a velocidade com que nuvens e estrelas transitam em sua órbita ao redor do centro galáctico.

"É como se fosse um velho disco de vinil girando numa vitrola", diz Moisés. "As partes mais externas precisam avançar numa velocidade maior que as internas, pois a distância que percorrem ao redor do centro é maior."

Por isso, com base na velocidade (ditada pela massa da galáxia, de acordo com as leis da gravidade), os radioastrônomos estimam a que distância do centro está uma dada região.

Mas a técnica exige uma série de pressuposições (sobre parâmetros como a matéria total presente na galáxia) e está sujeita a erros. Ela estimava o tamanho da galáxia em algo próximo de 100 mil anos-luz, com alguma margem de tolerância.

METADE

Moisés e seus colegas usaram, então, uma técnica alternativa. Em vez de usar a velocidade medida por rádio, procuraram identificar estrelas individuais pertencentes a essas regiões e estimar sua distância com base no brilho.

Praticamente todas as medições, feitas com os telescópios Soar e Blanco, ambos no Chile, apontaram distâncias menores do que as estimadas por rádio. Em média, a metade do que antes se pensava -uma diferença gritante.

Informalmente, os cientistas apelidaram o fenômeno de "the incredible shrinking galaxy" ("a incrível galáxia que encolhe", em inglês).

"O próprio pessoal da metodologia rádio tem parado para coçar a barba sobre isso", afirma Moisés.

Um terceiro método pode servir para decidir quem está certo, se as velhas medidas de rádio baseadas na velocidade ou as novas estimativas. Trata-se do uso de uma técnica de trigonometria clássica no espaço.

Os pesquisadores basicamente usam a pequena mudança de posição relativa de um determinado no astro no céu conforme a Terra está de um lado ou de outro do Sistema Solar (observações separadas por seis meses, tempo que o planeta leva para dar meia volta ao redor do Sol).

Triangulando tudo isso, conseguem as estimativas mais precisas de distância.

O problema é que é muito difícil fazer essas medições, tamanha a sutileza da mudança de posição relativa. O grupo de Andreas Brunthaler, do Instituto Max Planck para Radioastronomia, na Alemanha, fez algumas medições, e elas também sugerem distâncias menores.

"Por outro lado, outro trabalho recente nosso indica que a Via Láctea gira mais depressa do que antes se presumia, e que muitas regiões têm movimentos peculiares grandes", disse o pesquisador alemão à Folha.

"Essas seriam as principais razões pelas quais várias estimativas de distância feitas pela velocidade estavam erradas, grandes demais."

Agora, a pegadinha: para girar mais depressa, a Via Láctea tem de ter mais massa do que antes se imaginava. Como conciliar isso com a ideia de uma galáxia menor?

"A verdade é que a estrutura da galáxia é um tema completamente aberto", admite Moisés. "O pessoal da velocidade por rádio achou que estava fechando tudo, e agora tem de voltar à prancheta."

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